A Geografia da pandemia veio para ficar?

Imagem: Yan Krukov – Pexels

Carlos Vieira*

Muito provavelmente, será geográfico um dos maiores legados da pandemia não relacionados à saúde. Por todo o mundo, a consolidação do home office como resposta imediata aos lockdowns gerou um efeito dominó que continua em ação e tem consequências ainda pouco avaliadas.

Se, antes da pandemia, o home office não decolava e a maioria das empresas afirmava praticar a modalidade mais para efeitos de embelezamento de balanços sociais, vangloriando-se de oferecer programas com um dia de trabalho remoto a cada duas semanas, a pandemia deu o empurrão que faltava para se constatar o óbvio: no caso de inúmeras atividades, esse modelo de trabalho é amplamente vantajoso não só para funcionários, mas sobretudo para as próprias empresas.

Em grandes centros como São Paulo, por exemplo, onde é comum perder-se mais de duas horas por dia em deslocamentos de ida e volta ao trabalho, são inegáveis os benefícios para quem trabalha em casa. Já para as empresas, além dos surpreendentes ganhos de produtividade que o home office revelou, a possibilidade de abrir mão de boa parte de seus espaços de escritórios, economizando aluguel, condomínio, luz e água, veio em ótima hora, ajudando a compensar margens apertadas ou, muitas vezes, destruídas pela pandemia.

E, mesmo que, amanhã, se descobrisse a cura completa para a covid, muito dificilmente empresas e trabalhadores voltariam completamente às antigas formas de trabalho presencial e abandonariam essa nova maneira de colaboração profissional. Algo mudou.

E essa é a primeira consequência geo, micro localizada, do home office pandêmico. De uma hora para outra, andares, prédios e bairros essencialmente dedicados à atividade empresarial passam a dispor de espaços disponíveis para locação no mercado imobiliário. O que fazer com eles? Para alguns especialistas, será preciso repensar sua destinação e evitar o abandono de zonas inteiras nas cidades.

Mas, a exemplo do que aconteceu com a própria pandemia, que gerou o resultado positivo do trabalho remoto, o “limão” do esvaziamento de escritórios pode virar a “limonada” que ajuda a resolver o eterno déficit habitacional dos grandes centros urbanos brasileiros. Convertidos em residências, muitos desses espaços podem criar um choque de oferta em um segmento onde a demanda ainda é forte. E é importante que as cidades meçam esse esvaziamento com ferramentas geo, de modo a embasar estratégias facilitadoras à conversão para áreas residenciais sem atrapalhar o natural movimento do mercado, um dos melhores “solucionadores” de casos como esse.

Outra consequência geográfica, essa menos micro, são os impactos sobre o turismo de negócios. Ainda é cedo para dizer se, após a pandemia, centros de feiras e salões seguirão atraindo esse tipo de eventos na mesma intensidade. Mas, alguns já afirmam que, no novo normal, só deverão sobreviver os grandes eventos, mais tradicionais. As viagens para encontros de negócios e reuniões de trabalho, facilmente realizadas por vídeo-conferência, praticamente desapareceriam, reduzindo a necessidade de acomodações.

Para o setor hoteleiro de cidades essencialmente voltadas para o turismo de negócios (como São Paulo), já fortemente pressionado pela concorrência de plataformas como Airbnb, essa é uma perspectiva desafiadora. O resultado pode ser um novo aumento na oferta de espaços a serem convertidos em residências. Um fator a mais na equação da conversão para áreas residenciais, o que justifica uma maior utilização das geotecnologias por parte das cidades.

Finalmente, uma terceira consequência geo do home office, essa mais macro, é a saída das grandes metrópoles. Algo que, em certa medida, já estava acontecendo, sobretudo em centros mais avançados, onde o home office vinha sendo muito praticado antes mesmo da pandemia. Como em Londres, por exemplo, que já em fevereiro do ano passado, chamava a atenção para o fenômeno – certamente acentuado com a covid-19.

Com pandemia e a concreta possibilidade de trabalhar remotamente, muitas famílias em diversos países estão tomando a decisão de abandonar metrópoles estressantes, caras e caóticas e optar por uma vida mais tranquila, barata e agradável em cidades menores. No Brasil, isso já é uma realidade bem palpável, sendo raro quem não conheça alguém que tenha feito uma mudança dessas. Capitais como Florianópolis, cidades médias do interior e os litorais paulista e fluminense estão experimentando aumentos populacionais que precisam ser acompanhados de perto, sob pena de se inviabilizar rapidamente essas regiões, afundadas que seriam pelo aumento repentino e definitivo de habitantes pressionando por serviços hospitalares, educacionais e de água e esgoto.

Nesse sentido, a realização de um Censo Demográfico de 2022 com qualidade e um questionário que leve em conta esses fenômenos torna-se crucial. Mais do que nunca, agora é imperioso contar com dados que embasem políticas públicas e o planejamento dos municípios. As grandes cidades, para poderem estudar e viabilizar uma boa conversão no reordenamento de seus espaços em função dos esvaziamentos que se verificam por todo o mundo; as pequenas e médias, para poderem se programar e não repetirem os erros das grandes, se transformando naquilo que afugentou seus novos moradores. A realização do Censo 2022 é uma oportunidade sem paralelo para quantificar e qualificar essa movimentação e não pode ser desperdiçada.

Por tudo isso, tanto em nível local como mundial, a Geografia parece ser um dos fatores mais impactados por uma pandemia que marcará gerações. Seja acelerada ou provocada pela covid, a nova Geografia desse mundo pós-covid precisa ser, mais do que nunca, medida, monitorada e planejada com geoinformação de qualidade baseada, no caso brasileiro, não apenas em um Censo 2022 à altura do seu desafio e importância, mas também no uso das já disponíveis ferramentas de geolocalização de alta tecnologia, em termos globais. É com isso que vamos continuar a transformar limões em limonada.

*Carlos Vieira é jornalista e editor do Geocracia.

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