Atraso no Censo produz cidades com mais eleitores que habitantes

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Fronteira agrícola da Amazônia, Jacareacanga (PA) atrai novos moradores e tem a segunda maior disparidade nacional entre moradores estimados e eleitores registrados (imagem: Wikimedia Commons)

De acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem 569 cidades (10% dos municípios brasileiros) com mais eleitores do que a própria população estimada, e esse número é 15% maior que em 2020 (493 cidades).

Matéria do G1 ouviu especialistas sobre esse fenômeno e, segundo eles, a situação, que é normal, está aumentando, sobretudo, por conta do atraso no Censo, que deveria ter acontecido em 2020, mas foi adiado devido à pandemia. A explicação é que a Contagem Populacional prevista para 2015 não aconteceu e as estimativas populacionais se baseiam no último Censo, realizado em 2010. De lá para cá, muitas pessoas acabaram por mudar de cidade ou de estado e atualizaram ou tiraram seu primeiro título eleitoral de acordo com seus novos endereços. E este número tende a ser maior, já que o título de eleitor só é obrigatório para maiores de 18 anos e menores de 70.

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Em nota, o IBGE lembra que o último Censo ocorreu em 2010 e diz que espera divulgar até o fim do ano as populações de todos os municípios do país a partir dos resultados do Censo 2022, que começa na próxima segunda-feira (1º de agosto). O instituto cita ainda o fato de “moradores que se mudam para outras cidades comumente demorarem a fazer a transferência de seus domicílios eleitorais. Alguns não chegam nunca a fazê-lo”.

A professora do departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Iná Elias de Castro diz que a desatualização dos dados do Censo pode provocar distorções e que migrações são um fator importante nesse fenômeno.

Já os dados do TSE são inseridos em tempo real e estão mais atualizados, especialmente após a implantação da biometria, que já chegou a 75% dos eleitores. “Os números do perfil do eleitorado são dados oficiais e exatos, extraídos a partir do cadastro eleitoral, em que é considerado o domicílio eleitoral do cidadão e cidadã (…). Domicílio eleitoral esse, importante frisar, que é o local onde efetivamente o eleitor e eleitora vota, não necessariamente onde mora”, afirma nota do TSE.

Essa base de dados foi inclusive utilizada pela ferramenta Geografia do Voto, parceria entre o Geocracia e o Estadão e que reúne mais de 5 bilhões de votos computados no país desde 1996 para todos os níveis de cargos e por recorte mínimo de zona eleitoral.

Migração interna

A maior diferença entre população e eleitores é na cidade de Canaã dos Carajás, no Pará. Lá, a estimativa do IBGE para 2021 era de 39 mil habitantes, dez mil a menos que o número de eleitores registrados no município. Em segundo lugar, vem outra cidade do Pará, Jacareacanga, com uma população prevista de 7 mil e quase o dobro (13 mil) aptos a votar.

O fator da migração interna seria o grande responsável por essas disparidades. Carlos Augusto Souza, cientista político e professor da Universidade Federal do Pará, lembra que as duas cidades paraenses no topo do ranking, Canaã e Jacareacanga, estão em regiões de fronteira agrícola, onde houve um avanço de atividades ligadas à agropecuária.

“Os fatores que explicam a manutenção de taxas altas de eleitores não correspondentes com a população são migrantes que não fixam residência na cidade, ou atividade atrativa de mão de obra temporária. A pecuária é uma atividade desse tipo”, afirma.

Fenômeno parecido é o que ocorre quando grandes obras alteram a população de uma cidade pequena em pouco tempo. “Se o município é pequeno e nesse período começou uma obra grande como uma hidrelétrica, você dobra a população dependendo do tamanho do município, e isso dobra em 2 ou 3 anos”, afirma o também cientista político e professor da Universidade Federal do Paraná, Emerson Cervi.

Fonte: G1

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