Edmilson Volpi: Eis o Erdapfel, o globo mais antigo do mundo

Imagem: Wikipedia, Alexander Franke/CC BY-AS 2.0 DE

Se o globo mais antigo do mundo, que sobreviveu até hoje, nos ensinou alguma coisa, é que apenas quando pensamos que estamos começando a descobrir como o mundo funciona, descobrimos que mal sabemos de algumas coisas.

Conhecido formalmente como ‘Erdapfel’ (literalmente “Maçã da Terra” ou, em algumas traduções coloquiais, “Batata”), o globo mais antigo é um artefato impressionante e belo, mesmo que sua cartografia seja um pouco equivocada. O Erdapfel data de 1492 e está longe de ser o primeiro globo já criado no mundo, mas é, até agora, o mais antigo globo terrestre descoberto ainda em existência.

As representações redondas da Terra remontam à Grécia Antiga, e os primeiros mapas esféricos do mundo foram criados no mundo islâmico no século 13 ou mesmo antes. Mas acredita-se que nenhum desses sobreviveram. Além das descrições e dos mapas planos que teriam coberto os globos anteriores, o Erdapfel é o mais antigo artefato remanescente de seu tipo.

Também chamado de ‘Behaim Globe’, a construção do Erdapfel é creditada ao polímata do século 15, Martin Behaim, alemão, um conhecido geógrafo, comerciante, marinheiro e filósofo. Foi depois das suas viagens pelo Mundo Conhecido a lugares como Portugal e a Costa Oeste da África, que regressou a Nuremberg, sua terra natal, onde convenceu a Câmara Municipal a encomendar-lhe um globo.

Behaim pode ter recebido o crédito, mas na verdade foram necessários vários artesãos para concluir o projeto. Como já esperado, a construção do Erdapfel é um pouco mais sofisticada do que os globos de cartolina de hoje. Ele é feito de tiras de linho endurecido em torno de uma bola de argila e, em seguida, removidas. Estas delicadas metades foram depois unidas em torno de uma moldura de madeira.

A arte do mapa na superfície do globo contou com uma pequena equipe para ser concluída. O primeiro era o artista Georg Glockendon que, junto com o pintor Hans Storch, fez o trabalho de ilustração propriamente dito. Mais tarde, um escriba adicionou cerca de 2.000 nomes de lugares.

Behaim liderou a construção do globo e forneceu as informações cartográficas que embasaram as ilustrações. Ele tirou sua visão do mundo de várias fontes, desde a geografia histórica de Ptolomeu à explorações de Marco Polo. Embora o globo tenha se revelado muito bonito como um objeto de arte, sua precisão como instrumento geográfico estava desatualizada, mesmo em 1492.

O Erdapfel é coberto por uma cornucópia de lindos e pequenos detalhes ilustrativos, incluindo maisde 100 objeitos e figuras em miniatura. Isso inclui bandeiras; santos; reis nos seus tronos; animais, como elefantes, camelos e papagaios; bestas fantásticas, como uma serpente marinha e uma sereia; e barcos que partilham mares de peixes pintados.

Quanto aos elementos mapeados, há praticamente apenas uma grande massa de terra, representando um continente eurasiático, cercado por ilhas e oceanos. A medida das costas e a localização das princiapais características geográficas eram imprecisas, mesmo para os padrões da época, e o globo também apresentava elementos como a ilha fantasma de São Brendan [2], uma ilha mítica, cujos rumores vêm de longa data, mas nunca existiu.

Ainda assim, Cristóvão Colombo não retornaria de sua expedição às Américas até um ano após a criação do Erdapfel. Naquele momento, o globo de Behaim poderia passar como não totalmente irreal.

Behaim deu o globo para a prefeitura de Nuremberg, que o manteve consigo até o século 16, quando finalmente o devolveu a uma família Behaim um tanto desinteressada, que o guardou. No entanto, a apatia da família pode ter acabado por salvar o Erdapfel, pois ele permaneceu essencialmente esquecido até o século 19, quando as gerações posteriores redescobriram o artefato. Os descendentes de Behaim emprestaram o globo ao Museu Nacional Alemão em Nuremberg, no início do século 20. Em 1937, ele foi comprado pelo museu a pedido do próprio Adolf Hitler, que achava que um artefato alemão tão importante deveria permanecer no país. Desde então, o Erdapfel permanece nas mãos do Museu Nacional Alemão, que, hoje, tenta criar um registro digital da superfície do globo, escurecida por séculos de idade e tentativas de restauração, para compartilhá-la online.

Mesmo que o globo de Behaim continue sendo um exemplo pobre em termos cartográficos, ele continua a viver como uma curiosa e encantadora visão do mundo como um dia pensávamos que o conhecíamos.

Fonte: https://www.atlasobscura.com/articles/oldest-globe-erdapfel-behaim

Tradução:

Edmilson M. Volpi é engenheiro Cartógrafo e editor da página Curiosidades Cartográficas no Facebook e Instagram

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