“Fazer o Censo agora é uma temeridade”

Roberto Olinto

Com um orçamento fortemente reduzido e em um cenário de pandemia, seria uma temeridade realizar o Censo Demográfico este ano. A declaração é do ex-presidente do IBGE Roberto Olinto, 68 anos, 39 deles dedicados ao principal órgão produtor de estatísticas e de cartografia no país.

Falando exclusivamente para o site Geocracia e estreando a seção de entrevistas desse canal, Olinto teme que não haja condições para uma boa coleta de dados, com riscos de não haver entrevistas ou de se obter respostas de uma população estressada.

“Sempre defendi a manutenção da operação com orçamento adequado e uma discussão com a sociedade sobre essa opção. Hoje, considero uma temeridade a realização do Censo em 2021 sob as condições descritas e que resultará em uma subnumeração jamais observada e em informações incompletas ou enviesadas. O adiamento para 2022 possibilitaria que surgisse algum bom senso e iniciássemos uma discussão para termos o melhor Censo do mundo”, diz Olinto acrescentando que fazer o Censo no ano que vem possibilitaria contabilizar as profundas mudanças na população provocadas pela própria pandemia.

O Brasil se prepara para o Censo 2021 em meio a uma pandemia, com um orçamento reduzido e cortes de algumas perguntas do questionário. O que o ex-presidente do IBGE espera desse Censo, que já é atrasado em relação à previsão inicial que seria 2020? Vamos ter Censo em 2021?

O Censo demográfico e domiciliar 2020, uso o nome completo para chamar atenção a amplitude da operação, vem sendo alvo, desde a mudança do governo, de polêmicas sucessivas. Este Censo, como toda operação estatística, foi planejado durante muitos anos, sua importância não permite que seu planejamento seja feito apenas dentro do instituto de estatística. Por essa razão, foram realizadas inúmeras reuniões com a sociedade civil, usuários e especialistas buscando ouvir todos e discutir o possível.

Em 2019, o projeto do Censo estava terminado e os detalhes da operação estavam sendo desenvolvidos. O grande problema era conseguir a aprovação do orçamento, principalmente, para o ano onde se realizaria a coleta que concentra a maior parte dos custos do Censo.

Ao assumir o IBGE, a nova diretoria decidiu reduzir o questionário com o argumento que isso melhoraria a qualidade dos dados. Essa decisão foi contestada pela grande maioria dos especialistas e usuários e apoiada por uma parcela pequena de pessoas do entorno da Direção do IBGE.

A redução trará perda de informações importantes, fato fartamente noticiado e comentado.

Com a pandemia da covid-19, foi necessário adiar a operação por um ano, decisão indiscutível. Seria impossível executar uma operação que exige coleta presencial com entrevistas mais longas que as das pesquisas domiciliares anuais. A pandemia criou uma mudança comportamental, econômica e social inéditas no mundo. Várias pesquisas estatísticas foram afetadas, já não se pôde realizar entrevistas presenciais.

O que seria o comportamento mais adequado, então? Aproveitar o período para adequar o Censo à nova realidade, retomando os debates com a sociedade, especialistas e usuários. Nada foi feito.

A esse quadro soma-se a forte redução do orçamento (referência para o ano da coleta): se fosse feito em 2020, o Censo já teria um corte grande, de um valor inicial previsto de pouco mais de R$ 3 bilhões para R$ 2,3 bilhões. Agora, com o adiamento, o orçamento para realização este ano caiu para R$ 2 bilhões. Isso é um enorme fator de risco à operação, e o IBGE não apresentou aos interessados como executará com segurança um Censo com 2/3 do orçamento incialmente calculado.

Chegamos a 2021 com um quadro pandêmico piorado, a vacinação no país atrasada e sem clareza de quando se terá uma cobertura vacinal da população. Esse quadro é pior que o ano anterior, além das questões de segurança: a população está cansada, traumatizada, irritada com as restrições impostas. E, mais uma vez, se coloca a questão: vamos realizar um censo com início em agosto nessas condições ou seria mais adequado um novo adiamento?

Finalmente, chego ao que me foi perguntado. Não sei se haverá Censo este ano.

A decisão de adiar é de extrema responsabilidade. E o erro sistemático da Direção do IBGE é manter-se fechada, ignorando que uma decisão desta responsabilidade não pode ser tomada sem amplos debates. E uma Direção onde não se vê pessoas com conhecimento sobre como executar um Censo. Na verdade, nenhum tem história na área de estatísticas ou geoinformação.

Esta semana foi noticiado que coordenadores do IBGE e as representações dos funcionários estão solicitando o adiamento por considerarem que até agosto não haverá condições de se ter uma coleta de dados de qualidade.

A recente reação dos coordenadores do IBGE, que pedem o adiamento do Censo temendo não haver condições para uma boa coleta de dados, mais o quadro de pandemia, com risco de não haver entrevistas ou com respostas de uma população estressada, mostram que fazer esse Censo pode ser uma temeridade.

Sempre defendi a manutenção da operação com orçamento adequado e uma discussão com a sociedade sobre essa opção. Hoje, considero uma temeridade a realização do Censo em 2021 sob as condições descritas e que resultará em uma subnumeração jamais observada e em informações incompletas ou enviesadas. O adiamento para 2022 possibilitaria que surgisse algum bom senso e iniciássemos uma discussão para termos o melhor Censo do mundo.

Que dados brasileiros devem surgir como resultado do Censo pós-pandêmico?

A cobertura do país e a qualidade dos dados do Censo serão consequência das opções a serem tomadas quanto ao momento de sua realização, 2021 ou 2022, e a disponibilidade orçamentária.

No entanto, há um ponto importantíssimo que não está sendo considerado. A pandemia que durará ao menos dois anos provocará mudanças muito fortes na população. Pessoas que sofreram com a covid-19, pessoas que ficaram com sequelas físicas ou emocionais, perda de rendimento etc. Infelizmente, essas informações que seriam chaves para o planejamento da retomada da economia não estão sendo consideradas como parte integrante deste censo. Isso deveria ter sido pensado. Apenas como exemplo, o planejamento do SUS e do sistema educacional necessita conhecer de que maneira os municípios foram impactados.

Mais uma vez, o fechamento das discussões sobre o Censo faz haja mais esta lacuna: a identificação do impacto da pandemia de forma detalhada.

Essa enorme revolução tecnológica que estamos vivendo no mundo todo, com interconexão total, informação instantânea e Internet das Coisas pode chegar à metodologia de realização do Censo? Como ela pode ser aproveitada para facilitar a sua realização, aumentar a sua frequência e agilizar a divulgação dos resultados?

A realização de uma pesquisa estatística – e também a solicitação de dados pessoais, no caso da geoinformação – deve ser olhada por quatro óticas diferentes: (1) a tecnologia de coleta disponível, (2) como a população se relaciona com essa tecnologia, (3) sua disposição em informar e (4) a estrutura jurídica de proteção a essa informação, que não apenas deve existir, mas ser de conhecimento dos informantes.

As tecnologias atuais já permitem que coletas sejam feitas muito rapidamente sem exigir muito tempo dos informantes. E a informação coletada é enviada à sede do IBGE, criticada e processada quase diariamente. Mesmo com toda a inovação tecnológica, uma questão se mantém: como estabelecer a comunicação com os informantes. Não há avanço tecnológico dissociado de uma mudança cultural. Por exemplo: no Brasil, a grande maioria da população com acesso à Internet não aceita responder os questionários online, o que exige ainda um Censo com muitas visitas domiciliares.

Existem desafios permanentes, como convencer as pessoas a informar, o roubo ou uso inadequado de dados pessoais, a incompreensão entre o que é uma dado oficial protegido daquele colocado nas redes sociais, a dinâmica de vida das pessoas, as tensões sociais e políticas etc. Tudo isso cria uma resistência cada vez maior a informar seus dados. E, nesse caso, a tecnologia ajuda com o aperfeiçoamento da comunicação com os informantes. A tecnologia e a disposição em informar têm que caminhar juntas.

Pela lado do instituto de estatística as inovações facilitam mais e mais o contato entre o recenseador e o informante com dispositivos de coleta mais eficientes, aceleram a transmissão de dados, aperfeiçoam as ferramentas de crítica e permitem uma integração cada vez maior entre a estatística e a geoinformação. Um exemplo deste avanço é o sistema desenvolvido para o último Censo Agropecuário. A integração com a geoinformação e as possibilidades de geoprocessamento em todo o território permitiram que durante este censo todos os estabelecimentos fossem georeferenciados, as rotas cobertas pelos recenseadores fossem registradas e uma base de caminhos rurais, da estrada asfaltada à trilha escondida, fosse disponibilizada. A inovação permitiu que se acompanhasse todo o processo de preenchimento dos questionários pelos recenseadores, desde o local ao tempo de preenchimento. E, no próprio dispositivo, as informações passavam por uma crítica estatística inicial. Com isso, houve uma enorme melhora no tempo de processamento e controle de fraudes no preenchimento.

Com os desenvolvimentos incorporados, a disseminação das informações foi enormemente acelerada. É crível que se possa, em futuro próximo, ter informações disseminadas, em forma bruta (sem crítica final) e protegida, praticamente online.

Isso tudo tem de ser acompanhado de uma estrutura jurídica moderna que proteja as partes. Esse é um ponto que o Brasil está muito atrasado, a modernização de uma marco jurídico estatístico e a criação do marco geográfico são ações urgentes e, atualmente, ignoradas.

Por fim, a tendência mundial, já desenvolvida me vários países, é a gradual eliminação de operações censitárias por bases de dados demográficas baseadas em registros administrativos. Creio que este será o grande avanço que poderemos ter, e nesse caso, a inovação tecnológica será fundamental para viabilizar as enormes bases de dados, seu compartilhamento e sua proteção. O que não evitará, como sempre, a questão humana: o informante tem que ser sempre confiante e convencido que seus dados serão úteis e protegidos.

Estatística e geoinformação trabalham com tipos de dados diferentes, mas complementares. Como uma política pública de estatística e de geoinformação pode contribuir para o desenvolvimento do país? O que nos ensina a experiência internacional?

Hoje, o foco é: decisões precisam estar baseadas em fatos. Assim, não teremos fatos sem que estes reflitam a informação completa, a estatística e a geoinformação no mesmo pacote.

Durante muito tempo, as reuniões internacionais de estatística e geografia/geociências/geoinformação se realizaram separadamente e pouco se discutia, talvez nada, sobre a integração desses campos em uma área comum. Nos últimos anos, os ventos mudaram. Os institutos de estatística do Brasil e México, onde historicamente essas áreas eram integradas na mesma instituição, começaram a ser olhados como um caminho. A discussão sobre a interseção destas áreas cresceu muito. Hoje, ainda, não se chegou ao modelo de integração, não há recomendações internacionais. Porém, não se fazem mais reuniões sem que estejam presentes representantes dos dois campos.

Não sei qual será o modelo proposto pelos organismos internacionais, mas não há outro caminho que não seja integrar e, principalmente, evoluir na definição de marcos regulatórios contemporâneos que olhem as duas áreas integradas, mas com suas características próprias respeitadas.

Com todos pensando em carros autônomos, cidades inteligentes e novas tecnologias, qual será o papel da Fundação IBGE na construção desse futuro algorítmico, enquanto órgão público de Geografia e de Estatística?

Integração de produtores, usuários e informantes, padronização, compartilhamento de bases. Legislação moderna e clara, que enfrente os novos desafios, facilitando o desenvolvimento.

Nesse novo mundo, não há lugar para um instituto de estatística e geociências dissociado de um grande sistema nacional de informações oficiais que integre produtores e bases de dados de estatísticas, geoinformação e registros administrativos. Este sistema, ou qualquer outro nome que tenha, deverá ser o de coordenador com responsabilidades pela interoperacionalidade das diversas bases, integração, compartilhamento, regulação, legislação etc.

Ao falar de sistema, não falo de algo autoritário, burocrático, chato. Penso em uma estrutura participativa de toda a sociedade, democrática, ágil. De forma, que o “sistema” seja apenas uma peça na organização mais ampla de uma sociedade que desfruta a informação para seu crescimento.

Esse futuro é multidisciplinar. A única forma de se avançar aproveitando todo o potencial das novas tecnologias é iniciando imediatamente a discussão de como o Estado irá se organizar como o responsável pela produção, gestão e disseminação das informações oficiais.

Post Author: Geocracia