Luiz Ugeda, consultor da SPLAW e doutor em Geografia pela Universidade de Brasília, analisou em entrevista recente a CNN Brasil o impacto das tarifas impostas pelos Estados Unidos e o papel das terras raras nesse novo cenário de negociação. Segundo ele, o Brasil precisa avançar no mapeamento e na governança de seus minerais estratégicos, que vão além do potencial econômico e se estendem às cadeias globais de suprimento de energia e tecnologia. A disputa envolve, ao mesmo tempo, soberania nacional, sustentabilidade ambiental e posicionamento internacional.
As terras raras, grupo de 17 minerais críticos para a indústria de semicondutores, baterias e tecnologias de ponta, tornaram-se um dos principais trunfos geopolíticos. Ugeda ressalta que o Brasil detém reservas expressivas, mas ainda carece de dados precisos sobre sua viabilidade exploratória. Estimativas indicam que cerca de 70% do subsolo brasileiro permanece pouco conhecido, o que limita a capacidade de negociação e dificulta a definição de políticas claras para exploração. Nesse contexto, o país corre o risco de perder relevância diante da velocidade das transformações tecnológicas globais.
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O consultor lembra que a exploração mineral no Brasil enfrenta desafios ambientais e sociais significativos. Áreas de floresta, territórios indígenas e zonas de proteção ambiental se sobrepõem a regiões de interesse mineral, o que exige um pacto federativo mais sólido para harmonizar interesses locais, estaduais e federais. O dilema, afirma, é semelhante ao enfrentado na discussão sobre a exploração de petróleo na Margem Equatorial: uma equação que precisa equilibrar urgência econômica, segurança energética e preservação ambiental.
Do ponto de vista empresarial, companhias como a Vale aparecem como protagonistas potenciais nessa agenda. Embora o minério de ferro ainda seja seu carro-chefe, a mineradora tem estrutura e capilaridade para atuar também em terras raras e outros minerais estratégicos. Ugeda relembra que, em momentos históricos como a Segunda Guerra Mundial, o Brasil já soube transformar a exploração mineral em moeda de negociação internacional, como ocorreu com a instalação da siderúrgica nacional em troca da participação do país no esforço aliado.
A fala recente do presidente Lula, reforçando que “ninguém põe a mão nos minerais do Brasil”, ilustra a dimensão política do tema. Mas, segundo Ugeda, para que o país avance de forma soberana, é preciso transformar o mapeamento geológico e os dados minerais em uma infraestrutura nacional de informação integrada. Só assim será possível aliar exploração responsável, competitividade econômica e desenvolvimento regional. Na visão do especialista, a definição de um novo pacto territorial para o século XXI passa inevitavelmente pela clareza sobre como e onde explorar os recursos que farão parte da transição energética e da disputa tecnológica global.
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