Mapas dos votos: entre dados e previsões, quem vence as eleições?

Eleições: resultados do segundo turno da eleição presidencial 2018 por municípios (Geocracia).

Antônio Laranjeira*

Com o anúncio oficial das candidaturas à presidência da República, brasileiros e brasileiras passaram a buscar nos mapas eleitorais as lógicas da votação nos dois principais candidatos: Lula e Bolsonaro. No entanto, os mapas das eleições de 2022 são prospectivos e não determinísticos.

As probabilidades com base na estatística de uma pesquisa nacional de intenção de voto podem induzir a ideias enganadas e enganosas sobre a realidade eleitoral. É possível visualizar os dados e as estimativas eleitorais utilizando da escala estadual ou municipal, mas em ambos os casos a escolha da escala de visualização cartográfica faz a diferença no discurso eleitoral que cada organização de mídia assume.

Escala cartográfica: um fator falseador 

A visualização feita com a técnica de mapas coropléticos assume um tipo de feição gráfica em que as áreas apresentam cores sólidas (azul para Bolsonaro e vermelho para Haddad) conforme os candidatos preferidos de cada pesquisa.

Na visualização dos dados eleitorais por município (no alto), as diferenças de regiões do Brasil podem ser refinadas a partir dos dados socioeconômicos (como escolaridade e renda). Apesar de utilizar de mapas coropléticos e da escala local para ser expressada, essa definição não traduz a vantagem sob o total de votos, mas sim a média por município. O caso da reportagem do portal G1, de outubro de 2018, disponível para não-assinantes, reflete uma mapa dos dados de votação por município de 2018 e sugere, no decorrer do texto, uma comparação com o mapa de 2014. A notícia contém em seu discurso a justificativa sobre porque o vencedor da maioria das cidades não necessariamente é o ganhador em uma disputa nacional.

Já na visualização dos dados eleitorais por estado reportagem do Estadão Dados, de abril de 2022, disponível para assinantes do site, podemos notar um mapa de estimativas eleitorais para 2022, sem nenhuma contextualização com 2018 ou outras eleições. Esse mapa por estado circulou no Twitter provocando comentários sobre uma “abertura de vantagem” do ex-presidente Lula em relação ao presidente Bolsonaro. No entanto, a eleição não é vencida por quem tem eleitores em mais municípios, como foi com Haddad, e sim por quem recebe mais votos válidos no país inteiro.

Não são territórios que vão votar, são os habitantes que vivem nesses territórios – e nem todas as pessoas. É preciso utilizarmos de modelos ou bases de dados políticos realísticos, considerando Demografia e Estatística. Independente da escala de visualização do mapa da pesquisa eleitoral, vencerá, na realidade, quem obtiver mais votos conforme os coeficientes do sistema proporcional vigente para o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Comparação de mapas de dados eleitorais

O projeto historiográfico intitulado Atlas das Eleições Presidenciais no Brasil disponibiliza números e rankings das eleições de 1945 a 2018 com base em fontes oficiais governamentais, como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O Atlas realiza uma organização alternativa sem apoio oficial do governo ou declaração de vínculo acadêmico. Na comparação das estatísticas do voto para presidente da República em cada uma das 27 unidades federativas atuais, é possível notar que a polarização também tem, além das regiões, as zonas de inversão, onde o vermelho deu lugar ao azul com os anos (como o Rio Grande do Sul).

Já o projeto jornalístico Raio-X, do portal UOL, realiza coberturas baseadas em dados em nível municipal, estadual e federal. Com o painel orientado por um mapa interativo, é possível avaliar o desempenho de cada candidato ou cada partido por município e estado nas notícias de Política, um recurso que distingue este site de outros no quesito organização das informações.

Comparar resultados de anos anteriores a partir desse painel da UOL ou do Atlas pode ampliar a visão do público sobre questões de interesse público, como as tendências de cada estado de modo específico e não apenas do país de modo generalizado.

Portanto, seja a explicação histórica ou jornalística, sendo um influenciador de opinião, é possível mentir convenientemente, exagerar propositalmente e até mesmo errar acidentalmente na transmissão de uma mensagem que contém informações cartográficas, sejam em painéis em um estúdio de telejornal ou no sistema digital de um portal.

Dados e discursos sobre mapas eleitorais

Estes exemplos de mapas coropléticos, sejam eles estados ou municípios, estáticos ou dinâmicos, submetem os públicos desses conteúdos, de forma generalizada, ao sentido de objetividade sobre os dados da pesquisa eleitoral que precede o mapeamento dos dados, apresentados na forma das cores.

Especialmente os mapas eleitorais que focam em dois candidatos têm o poder de transmitir a sensação de certeza ou incerteza sobre a vitória de um ou de outro candidato. Portanto, ainda que este mapa contenha dados falsos e passem por uma apresentação subjetiva por parte das notícias, especialmente em meios digitais, onde a reprodução pode ser comentada e até mesmo as cores alteradas, o mapa eleitoral tem um efeito de mídia potente.

Seja uma pessoa que acredita que ele tem efeito em outro, embora não tenha efeito nela mesma; quer seja uma pessoa que, de fato, acredita que o mapa está correto e circula conclusões alusivas ao senso comum regionalista – com comentários como “o Nordeste fecha com Lula” ou “o Centro-Oeste fecha com Bolsonaro”. A Cartografia serve ao “desejo de verdade” de alguns usuários como uma linguagem que expressa razão e poder da sua “verdade pessoal”.

Por uma checagem de mapas eleitorais

É uma época crucial para evitar simplificar as complexidades e assumir predições inválidas dos votos. Os mapas noticiados têm poder midiático e discurso jornalístico e devem levar em conta a demografia dos votos e a estatística dos eleitores, questões que devem ser separadas, a custo de serem confundidas e oferecerem informações equivocadas sobre os dados.

Cada vez mais emerge como função dos jornalistas julgar quais são os mapas corretos e também os incorretos na leitura dos fatos estatísticos eleitorais, com base em fontes verificáveis, bem como os cenários preditos em cada tipo de metodologia de pesquisa, sem desconsiderar as metodologias mais e menos robustas, em termos de rigor técnico.

Ainda é rara a dedicação de jornalistas ou as denúncias de agências de checagem de fatos em interpretar mapas que circulam na web. Essa feição geométrica da matemática e da estatística pode qualificar ou desqualificar a informação jornalística durante uma eleição. Um mapa bom depende, fundamentalmente, da melhor explicação da notícia escrita ou falada que o acompanha somada à matriz de cobertura da realidade eleitoral construída ao longo das campanhas até o dia da votação.

Esse posicionamento ético sobre os mapas usados há de envolver os editores dos jornais, que devem estabelecer os principais objetivos que poderiam ser perseguidos durante coberturas das eleições no Brasil – em minha visão, um esforço ainda realizado por poucas (e boas) organizações e profissionais de Jornalismo.

* Antônio Laranjeira é Jornalista pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Mestre em Comunicação e Sociedade pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), Doutorando em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Professor de Geocomunicações pelo Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados (IPBAD).

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