Precisamos reverter a queda no interesse pela engenharia cartográfica

engenharia cartográfica
João Fernando Custodio da Silva, presidente da ABEC-SP (imagem: arquivo pessoal)

O presidente da Associação Brasileira de Engenheiros Cartógrafos – Regional São Paulo (ABEC-SP), João Fernando Custodio da Silva, está preocupado com o esvaziamento dos cursos de Engenharia Cartográfica. Ele teme que, em breve, faltem profissionais para aproveitar o boom das startups tecnológicas no setor da geoinformação, fenômeno que ocorre em todo o mundo: “Um ponto importante e crucial deve ser a radical mudança na atuação da Universidade brasileira, que precisa estar associada à política industrial, sobretudo as faculdades que oferecem cursos nas áreas tecnológicas”, diz. Engenheiro cartógrafo, mestre e doutor em Ciências Geodésicas pela UFPR e professor do departamento de Cartografia da FCT/Unesp, ele também clama por um Marco Legal que garanta financiamento público e estimule o financiamento privado nacional e estrangeiro do setor aeroespacial brasileiro, fonte recorrente de dados para a Engenharia Cartográfica. Em entrevista exclusiva ao Geocracia, Custodio da Silva afirma que não vê no Estado brasileiro a decisão de dotar o País de uma eficiente e condigna política industrial sem percalços, mas critica “descontinuidades, mudanças de rumo e imediatismos”.

Acompanhe, a seguir, a entrevista na íntegra.

A utilização dos mapas em celulares e softwares de mapeamento tem revolucionado a forma de fazermos negócios no século 21. Neste contexto, mapas parecem ter virado uma commodity e um objeto de trabalho dos profissionais de tecnologias da informação (TI). Como a Engenharia Cartográfica se enquadra neste contexto?

A gênese da Engenharia Cartográfica, no Brasil, está fundamentalmente relacionada à cobertura cartográfica do extenso território e, também, ao mapeamento das cidades. Muitos mestres dos princípios da Engenharia Cartográfica brasileira diziam que não fôramos feitos para posarmos em vitrines e sim nos orgulharmos de sermos preparados para construir a infraestrutura da infraestrutura nacional, a base para o lançamento dos projetos das outras modalidades das engenharias. De fato, a formação universitária do engenheiro cartógrafo contempla todo o conjunto das disciplinas que organizam o conhecimento da técnica para determinar a posição de qualquer ponto ou feição na superfície terrestre e suas imediações até a sua representação em uma base cartográfica, que é essencial a qualquer ramo econômico que requeira o conhecimento do território ou a distribuição geográfica da sua atividade. Sendo essa lógica encerrada em um processo de formação e de trabalho, a evolução tecnológica vai sendo incorporada na formação educacional e, consequentemente, no desempenho da atividade profissional. Quanto ao tratamento dos mapas ou as informações geográficas serem commodities, particularmente, tive, no início da década de 90, a mesma visão, que explicitei em um artigo na extinta revista Fator GIS. Evidentemente, dada a velocidade e a intensidade do meio digital ter moldado os negócios, é imperativo que as universidades incorporem sistematicamente as tecnologias da informação, seja como método de ensino, seja como parte do conteúdo da formação do engenheiro cartógrafo, sem deixar de lado a visão macro de se pensar o território nacional em sua totalidade, nem tampouco abrandar a necessidade de se mapear cada cidade brasileira.

Vivemos um boom de startups tecnológicas pegando carona na nova corrida espacial e lançando uma nova geração de satélites que vão suportar a Economia 4.0, fortemente baseada em geoinformação. São bilhões em negócios e inúmeros novos empregos. Como a Engenharia Cartográfica brasileira pode se posicionar para estimular o florescimento de uma forte indústria aeroespacial e não perder esse trem?

Eu não vejo no Estado brasileiro – digo Estado porque acredito tratar-se de uma questão estratégica nacional – a decisão de dotar o País de uma eficiente e condigna política industrial sem percalços. Tem havido descontinuidades, mudanças de rumo e imediatismos. Questiona-se a capacidade de financiamento, seja do setor público ou privado, para empreender algo grandioso e perene a ponto de impulsionar a indústria nacional a patamares desejáveis. Ao ponto de, pelo menos, reter a evasão dos profissionais de nível superior (inclusive com pós-graduação), por exemplo, quanto mais de participar dos negócios na América Latina e África, geograficamente mais próximos, ou na cena global. Entendo que Governo Federal e Congresso Nacional devam dotar o País de um marco legal ancorado na Constituição Federal, que, entre outras coisas, garanta o financiamento público e o estímulo ao financiamento privado nacional e estrangeiro à indústria aeroespacial no Brasil – fonte recorrente de dados para a Engenharia Cartográfica. Um ponto importante e crucial deve ser a radical mudança na atuação da Universidade brasileira, que precisa estar associada à política industrial, sobretudo as faculdades que oferecem cursos nas áreas tecnológicas. Há massa crítica, recursos humanos, pessoas capazes e bem formadas que anseiam por verem outras portas abertas – e não apenas as do mundo acadêmico, no caso dos pós-graduados –, além de engenheiros que podem catapultar uma rede de empresas inovadoras.

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Como está a inserção da ABEC-SP no sistema Confea-Crea?

No final de 2021, a ABEC-SP obteve o registro junto ao CREA-SP. Pela primeira vez, tem o seu representante como conselheiro por um mandato de três anos, de 2022 até o final de 2024. No CREA-PR, a ABEC-PR atua já há alguns mandatos. É preciso que, nos demais estados, outras ABECs se organizem para atuar dentro do sistema Confea-Crea. Um passo inicial pode ser a associação com outras modalidades de engenharia e geociências, para que seja possível a formação de câmaras mistas. Lembremos também que as escolas de engenharia podem indicar um professor para ser conselheiro representante da congregação. São passos que fortalecem e dão visibilidade à Engenharia Cartográfica no sistema Confea-Crea.

Desde 2019, quando foi extinta a Concar, estamos, na prática, sem um órgão que estabeleça a governança da cartografia nacional. Nossa Constituição, aliás, no seu art. 21, XV, prevê que a União organize e mantenha serviços de geografia e cartografia, mas isso nunca foi regulamentado. Alguns países importantes estão criando agências reguladoras para fortalecer a produção de geoinformação e da produção cartográfica. A ABEC-SP tem feito alguma análise neste sentido?

Análise sistemática não. O que temos são as experiências de alguns dos nossos associados que passaram, e até foram responsáveis, pela criação da COCAR, também extinta, a sua recriação como CONCAR, e são críticos também desta última extinção. Isto demonstra a falta de uma visão sistêmica e integrada do alcance, importância e utilidade da Cartografia e da Geoinformação, tanto para o setor público quanto o privado e até mesmo para o chamado terceiro setor. Temos no País órgãos e empresas capazes de planejar e produzir mapas e informações espaciais, de modo contínuo e sistemático, a ponto de comercializar os produtos como commodities. Isto precisa ser incentivado, normatizado, regulamentado, financiado, enfim, é urgente reunir as competências, profissionais e institucionais, em torno de um projeto nacional com eficácia regional. Por outro lado, na falta de um órgão ou liderança catalisadora, penso que as universidades, usando de sua autonomia, podem iniciar estudos e trabalhos mediante a criação de uma disciplina de Cartografia Comparada, estendida à Geoinformação, com dados legais, técnicos e econômicos tomados dos países territorialmente extensos. Isto é imperativo, pois me parece que, nesta questão de comparação cartográfica, a análise correta exige considerar a condição geopolítica e a situação da cartografia no Brasil, face à régua dos extensos países. Eles dominam os seus territórios mediante levantamentos geodésicos, topográficos, aerofotogramétricos, orbitais para obter os dados não só para o mapeamento cartográfico, como também para produzir a mais refinada geoinformação.

Pode-se afirmar que um dos marcos da Engenharia Cartográfica brasileira foi a comemoração, no centenário da Independência do Brasil, em 1922, da Carta ao Milionésimo. Em um mundo disruptivo, quais contribuições o país poderá esperar da Engenharia Cartográfica nos próximos anos?

Inicio a resposta com a pergunta “o mundo disruptivo reforçará ou exterminará as fronteiras entre os países”? Enquanto houver fronteiras, a geografia e a cartografia estarão presentes para explicar e mapear, não importando o meio. Quanto mais cantamos “Imagine”, de John Lennon, mais fronteiras vão sendo traçadas: poesia e realidade em direções distintas. E temos as fronteiras com os países vizinhos, entre os estados, os municípios e os bairros; e ainda as propriedades rurais e urbanas, e os caminhos da locomoção (arruamentos, calçadas e fachadas), todas delimitadas no mapa e no território. Sem mencionar os limites intangíveis dos dados meteorológicos, por exemplo, e os dados econômicos e sociais. Em 2022, o bicentenário da Independência estará eclipsado pelo ano eleitoral. Há 100 anos, tivemos um primeiro mapeamento compreensivo do território nacional, insuficiente para o planejamento em escala regional, mas indispensável para reunir o vasto território em uma visão integrada nas 46 folhas ou cartas ao milionésimo. Hoje, 200 anos, temos feito algo relevante, mas ainda há muito por fazer. Vários engenheiros cartógrafos, atuando nos diversos organismos cartográficos, nacionais, regionais, estaduais e até mesmo municipais, e nas empresas comerciais especializadas, construíram a representação cartográfica de loteamentos fundiários, bairros, cidades, municípios, estados e do País, além de suas vias de mobilidade. Junto com a engenharia de transportes, trabalharam com geolocalização no agro, na indústria mineral e florestal e em diversos outros ramos de atividade que somam mais de trinta, e explicitaram em meios analógicos e digitais os dados econômicos e sociais. Tem havido respostas que incorporam a tecnologia disruptiva, geralmente importada, para a solução das demandas de clientes, do governo às empresas privadas e vice-versa, desde um ponto, evento ou feição na escala local, até a visão da águia de todo o território nacional. O que preocupa de fato é a decrescente curva do interesse dos jovens pelas engenharias – particularmente a nossa engenharia cartográfica, mas também a de agrimensura. Nesta última década, as relações candidato/vaga caíram seguidamente. E encerro a resposta com outra pergunta: “teremos harpias alçando voo?”.

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