Jan Theóphilo, no portal agendadopoder.com.br, resgatou com bom humor e espírito crítico as trapalhadas que marcaram a jornada do Brasil rumo ao espaço. Um país conhecido por sua genialidade nos campos, nas pistas e nos palcos também decidiu entrar na corrida espacial — mas à sua maneira. O programa, que nasceu sob ares científicos e patrióticos em plena Guerra Fria, acabou se desenrolando com mais reviravoltas que novela das nove, misturando ambição geopolítica, promessas não cumpridas e um certo improviso institucional que virou marca registrada.
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Nos anos 1990, a assinatura do acordo com a Estação Espacial Internacional parecia um salto definitivo: o Brasil prometia entregar seis equipamentos em troca de acesso tecnológico e presença permanente na plataforma orbital. Mas os compromissos nunca saíram do papel. A situação se agravou em 2003, com a tragédia na base de Alcântara: a explosão do foguete VLS-1 matou 21 técnicos e engenheiros, paralisando projetos e evidenciando os entraves estruturais do setor. Quatro anos depois, em 2007, a NASA rompeu unilateralmente o acordo brasileiro com a Estação Espacial Internacional, diante do não cumprimento das metas previstas.
Nesse contexto, a figura de Marcos Pontes despontou como um lampejo de esperança e vaidade nacional. Selecionado em 1998 pela NASA, o então militar da Força Aérea só conseguiu viajar ao espaço em 2006, e com apoio russo: o governo brasileiro pagou cerca de US$ 10 milhões por uma vaga no velho foguete Soyuz. Durante sua breve estadia de oito dias na ISS, Pontes conduziu experimentos simples, fez transmissões educativas e virou ícone escolar. Mas sua ausência na foto oficial da tripulação, por ser considerado apenas um “passageiro visitante”, foi um constrangimento diplomático difícil de digerir.
Apesar dos tropeços, o Brasil não abandonou seus sonhos orbitais. O satélite Amazônia-1, lançado em 2021, simboliza a resiliência do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Parcerias com Alemanha e Argentina, além do interesse privado — como o de Elon Musk pela Base de Alcântara — indicam que o país ainda pode ter um lugar na nova economia espacial. A base, situada estrategicamente próxima à linha do Equador, também superou pendências com comunidades quilombolas que por décadas travaram o avanço dos lançamentos.
Mas o desafio brasileiro continua sendo estrutural. A cada novo governo, planos são refeitos, verbas são contingenciadas e prioridades, alteradas. O espaço, para o Brasil, permanece mais como metáfora do sonho do que como realidade geopolítica. Entre satélites que não orbitam, promessas que não se lançam e bases que explodem, a astronáutica brasileira ainda caminha devagar — e de capacete na mão.
A conta por não termos decolado, literalmente, começa agora a ser cobrada. Em julho de 2025, o governo brasileiro instituiu um grupo técnico interinstitucional para estudar a criação de um sistema nacional de geolocalização por satélite — uma espécie de “GPS brasileiro”. A medida vem em resposta à crescente preocupação com a dependência do país de constelações estrangeiras como o GPS (EUA), Galileo (UE), Glonass (Rússia) e BeiDou (China), cujos sinais são utilizados gratuitamente, mas podem ser limitados ou suspensos em cenários de tensão geopolítica. A ausência de um sistema próprio compromete setores estratégicos como defesa, aviação, agricultura de precisão e logística, além de evidenciar o custo da estagnação no programa espacial: um país de dimensões continentais, com ambições internacionais, que ainda depende do céu alheio para se localizar. Desenvolver um sistema regional ou global exigirá bilhões em investimento, domínio tecnológico e produção nacional de componentes avançados, como os da microeletrônica espacial — uma lacuna que se abriu justamente porque o Brasil ficou décadas olhando as estrelas, mas sem sair do chão.
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