“É preciso equacionar pobreza estrutural com mudanças climáticas”

mudanças climáticas
Para Alex Abiko, professor de Gestão Urbana e Habitacional da USP, pobreza e mudanças climáticas são nossos principais problemas (foto: Zé Carlos Barretta/Divulgação FDTE).

Apesar de pessimista, o professor titular em Gestão Urbana e Habitacional da Escola Politécnica da USP, Alex Abiko, acredita em um mundo no qual conseguiremos equacionar a pobreza estrutural com as mudanças climáticas – segundo ele, nossos mais importantes problemas em escala nacional e global. Para Abiko, que também é coordenador da Comissão de Estudos Especiais (CEE) 268 da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) Cidades e Comunidades Sustentáveis, as mudanças climáticas parecem se constituir no palco no qual deveremos todos atuar: “Pelo andar das decisões tomadas e das políticas públicas ambientalmente adequadas mas não implementadas, o meu sentimento é de pessimismo; no entanto continuamos a acreditar, mesmo que de forma pessimista”.

Leia a entrevista na íntegra, a seguir.

Da sua posição de coordenador da CEE 268, como está funcionando essa norma e quais as consequências da sua constituição, em 2015? Qual seu impacto?

Ela é uma Comissão Espelho na ABNT da ISO TC 268, Technical Committee Sustainable Cities and Communities, criada em 2012. O objetivo desta Comissão aqui na ABNT é internalizar no país as normas da ISO. Por internalizar, entende-se a tradução das normas para a língua portuguesa e adaptá-las para a realidade do Brasil. A CEE 268 está funcionando muito bem, com uma participação ativa de seus membros, pessoas físicas, consultores, membros da academia, governos municipais, empresas públicas, associações, sempre pautada pelas diretrizes técnicas estabelecidas pela ISO e ABNT. Como consequência principal de sua criação, oferecemos ao meio técnico, administrativo e político um conjunto articulado de documentos de referência para que possam ser utilizados de forma voluntária por quem estiver preocupado em melhorar a sustentabilidade de suas cidades e comunidades. Em relação ao impacto, temos notícias que ela está sendo utilizada no Programa Município Verde Azul da Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente do Estado de São Paulo e em alguns estudos em Brasília, Salvador, Sorocaba, São José dos Campos, entre muitos outros.

Leia também:

Quem mais procura saber sobre a sua implementação – governos locais, governo nacional, empresas, professores, alunos?

Infelizmente, não conseguimos mapear a utilização das normas publicadas pela CEE 268, mas somos procurados por governos municipais e estaduais, inúmeras empresas, particularmente as de serviços públicos, associações profissionais, alunos, professores e pesquisadores. Qualquer um dos membros da Comissão está apto a fornecer as informações relativas ao processo de normalização de cidades e comunidades.

Algum município já utilizou a norma para fazer avaliação comparativa entre cidades brasileiras e internacionais, já que é norma ISO? E que adaptações foram necessárias para a Norma Brasileira em relação à original da ISO?

Todas as normas da ISO podem ser utilizadas em um contexto internacional e o mesmo poderia acontecer com as normas da CEE 268 da ABNT, pelo que foi exposto anteriormente. Sabemos que São Paulo e Brasília foram procurados para participarem do WCCD, World Council on City Data, um serviço oferecido para certificar cidades em um contexto internacional que utiliza as normas da ISO. No entanto, pelo que sei, o projeto não evoluiu. Quanto à questão das adaptações, as normas brasileiras da CEE 268 não sofrem e nem podem sofrer nenhuma adaptação, mudança ou adequação. Elas somente admitem observações por nota de pé de página, o que faz com que possam ser utilizadas em um contexto internacional e de forma comparativa. Por outro lado, a CEE-268 participa ativamente das discussões das normas, quando ainda estão em elaboração em âmbito internacional, pela ISO TC 268, o que tem incorporado as especificidades do Brasil – e acreditamos de outros países em desenvolvimento – aos textos das normas internacionais.

Como fazer planejamento urbano no Brasil com a falta de integração das infraestruturas de bases de dados que vivemos?

Este é um dos grandes desafios que enfrentamos no país. A entrevista que o Prof. Eduardo Francisco deu para o Geocracia detalha este problema da falta de integração das infraestruturas de base de dados que temos, e isso impactando as nossa políticas públicas. Gostaria de acrescentar que isso é particularmente difícil em um país com dimensões continentais – por isso mesmo, organizado como uma Federação, com autonomia dos seus níveis de governo municipal, estadual e federal, sem sequer mencionar a escala de articulação metropolitana que será objeto dos Planos Metropolitanos previstos no Estatuto da Metrópole. Devemos ter consciência destes problemas e acredito que as normas técnicas possam se constituir em uma contribuição efetiva para aperfeiçoar os processos técnicos que enfrentamos.

Como imagina as cidades brasileiras em 2050?

Também é difícil prever. Novamente, lendo os artigos técnicos de meus colegas que militam na área do planejamento urbano, diria que não estamos nada otimistas com o futuro. As mudanças climáticas me parecem se constituir no palco no qual deveremos todos atuar. Pelo andar das decisões tomadas e das políticas públicas ambientalmente adequadas mas não implementadas, o meu sentimento é de pessimismo; no entanto continuamos a acreditar, mesmo que de forma pessimista, em um mundo que conseguirá equacionar a pobreza estrutural que, junto com as mudanças climáticas, são os nossos mais importantes problemas em escala nacional, mas também em escala global. 

Veja também

Geo e Legislação

Câmera memoriza mapa visual para se localizar e dispensa GPS

Cientistas da Universidade de Bristol, na Inglaterra, desenvolveram uma câmera que consegue criar uma imagem virtual dos locais por onde passou para memorizá-los. Com isso, ela dispensa o uso de GPS para “saber” onde está. A inovação deverá melhorar a capacidade de localização de dispositivos (como smartphones) em espaços fechados,

Não perca as notícias de geoinformação