Raquel Dezidério: “Mapas colaborativos são a Cartografia 2.0. Vamos mapear!”

Raquel Dezidério Souto, presidente do IVIDES.org (foto: arquivo pessoal)

Presidente do Instituto Virtual para o Desenvolvimento Sustentável – IVIDES.org e professora associada ao GeoCart/UFRJ, Raquel Dezidério Souto é uma das maiores especialistas brasileiras na aplicação de metodologias de mapeamentos participativos – aqueles feitos com a colaboração de indivíduos e que ela classifica como a Cartografia 2.0. Falando ao Geocracia sobre o crescimento desse tipo de mapeamento como solução para lacunas deixadas pela legislação e governos, ela prevê um futuro animador. Para ela, essa Cartografia 2.0 se desenvolverá na Internet graças ao aperfeiçoamento dos programas, ao aumento da capacidade de armazenamento dos dados geoespaciais e à oferta de mais funções de geoprocessamento dos aplicativos: “faremos mais e melhor”.

O que é cartografia colaborativa e o que ela traz de vantagens?

A Cartografia colaborativa é aquela que conta com a colaboração de indivíduos no mapeamento, que realizam o aporte de dados geoespaciais, segundo seu código de valores e, portanto, sua visão particular de mundo. Trata-se de uma abordagem conhecida como de baixo para cima (bottom-up), que apresenta o fluxo do processo de mapeamento em sentido inverso ao do mapeamento convencional, de cima para baixo (top-down), que segue os objetivos e interesses dos órgãos oficiais de produção cartográfica.

Embora os dados obtidos no Brasil de forma colaborativa ainda não sejam passíveis de homologação pelo Estado (que apenas considera os dados obtidos por produtores oficiais como IBGE, por exemplo), constituem uma solução muito interessante no planejamento e gestão ambientais; no planejamento urbano e territorial; no planejamento espacial (especialmente o marinho); como meio de fornecer dados para áreas não mapeadas oficialmente (denominadas vazios cartográficos); nos projetos de webmarketing; nos projetos de monitoramento; e nos projetos de redução de riscos de desastres.

As vantagens no emprego destes tipos de mapeamentos consistem em:

  • aquisição de maior volume de dados;
  • menor custo de operação relativamente ao mapeamento convencional;
  • maior velocidade no mapeamento, e
  • possibilidade de validação colaborativa também, o que também contribui para a redução de custos. 

Existem alguns casos do uso dessa cartografia, como os do vilarejo de Shibitachi, no Japão, e o da produção de dados participativos do zoneamento costeiro do Ceará, evidenciando uma diversidade cultural e de formação por parte de quem colabora no processo. Qualquer pessoa pode colaborar ou é preciso algum conhecimento técnico e acesso a tecnologias específicas?

Aqui cabe uma distinção entre mapeamentos participativos, nos quais os participantes efetivamente plotam os dados no mapa, dos colaborativos, nos quais os colaboradores enviam os dados aos responsáveis pelo mapeamento para, então, serem validados e plotados no mapa.

Em ambos os mapeamentos, qualquer pessoa pode se tornar um mapeador, porém as iniciativas que envolvem mapeamentos participativos contam com pessoas especializadas, que conduzem as atividades relacionadas ao mapeamento, que não ocorre em um momento único – trata-se de um processo de mapeamento. Há, no entanto, métodos mais simples de elaboração de mapas denominados ground maps (desenhados no chão, no solo) e sketch maps (desenhados em papel, frequentemente em cartolina), que não necessitam de conhecimento especializado para serem usados. Para os demais casos é prevista uma etapa inicial de alfabetização cartográfica dos participantes.

Já no caso dos mapeamentos colaborativos, que se utilizam da informação geográfica voluntária (volunteered geographic information, VGI), fornecida por voluntários em geral (tendo recebido o nome de crowdsourcing ou dados da multidão), são utilizados sistemas de informações geográficas na web (geoweb). Por meio dessas aplicações, os usuários colaboradores podem enviar dados que são posteriormente validados automaticamente ou por terceiros, sendo o OpenStreetMap® o exemplo mais proeminente atualmente (base cartográfica colaborativa que conta com milhões de usuários e bilhões de features mapeadas). Alguns mapeamentos colaborativos envolvem recursos multimídia (fotografias, vídeos etc), tornando-se atraentes nos temas mais populares, como registros de viagens, registros de segurança (como o mapeamento Onde Tem Tiroteio, OTT, que mapeia ocorrências de tiroteio na cidade do Rio de Janeiro), registros de preferências musicais, entre outros. Por utilizar dados pessoais e frutos da experiência de vida das pessoas (e seguindo a tendência do surgimento das redes sociais), esse tipo de cartografia foi denominada ‘Cartografia 2.0’.

Leia também:

Que resultados práticos a abordagem trouxe para esses casos concretos?

No caso da proposta de zoneamento ecológico-econômico do estado do Ceará, elaborada pela Profa. Dra. Adryane Gorayeb e equipe, a pesquisadora ressalta que o processo de mapeamento participativo, constituído de dezenas de oficinas de mapeamento e seguindo um escopo de projeto científico maior, possibilitou a identificação de conflitos de interesse na região, como o conflito entre as atividades de pesca e de turismo náutico. Além disso, a metodologia escolhida contribuiu para a visibilidade da população residente na zona costeira do Ceará, com o mapeamento dos usos e dos valores próprios dos grupos, que inclusive participaram da criação dos itens da legenda. O processo envolveu diversos atores e foram realizadas oficinas com pescadores das colônias de pesca da região. Somente isto já contribui para o empoderamento da população residente no processo de planejamento e gestão ambiental da região, do qual faz parte o instrumento de zoneamento.

Resultado semelhante foi encontrado pela Profa. Dra. Ivana Jalowitzki e outros pesquisadores, no processo de mapeamento participativo que realizaram com os moradores do vilarejo de Shibitachi (Japão), após a ocorrência do Tsunami de 2011, que atingiu a costa nipônica e causou o acidente com a Usina Nuclear de Fukushima. Os pesquisadores reconhecem que a promoção das oficinas de mapeamento participativo com os grupos focais de residentes em Shibitachi contribuiu para empoderar a comunidade perante o governo (que incluiu suas solicitações na gestão dos danos provocados pelo Tsunami) e também para o processo de recuperação das próprias pessoas, que encontraram apoio umas nas outras durante os encontros.

Muitos são os exemplos de mapeamentos participativos ou colaborativos que geraram resultados além do esperado em termos de expectativas iniciais. Porém, é importante levar em consideração os princípios e as peculiaridades técnicas nesses mapeamentos a fim de que o sucesso seja alcançado. 

No Brasil, graças ao vazio regulatório deixado pela ausência de regulamentação do art. 21 inciso XV da CF, vivemos uma situação de baixa governança cartográfica. Nesse sentido, como a cartografia participativa pode colaborar para racionalizar uma realidade que nos obriga a pagar o mesmo mapa várias vezes e usá-lo uma vez só?

O referido inciso XV, do art. 21 da CF, “organizar e manter os serviços oficiais de estatística, geografia, geologia e cartografia de âmbito nacional” carece ainda de regulamentação, o que leva a muitos entraves ao desenvolvimento da Cartografia a nível nacional, uma vez que somente são considerados os dados cartográficos produzidos pelas instituições oficiais de produção de dados, como o IBGE. No entanto, havendo uma coordenação nacional, como a extinta Comissão Nacional de Cartografia (CONCAR), diretrizes de desenvolvimento da Cartografia podem ser estabelecidas, fornecendo o norte para as ações em níveis regional e local. Atualmente, a revolução dos dados abertos (ou OpenData) – parte de um movimento maior, do conhecimento aberto (o Open Knowledgement) – associada ao aumento do poder computacional e da capacidade das nuvens de dados na Internet (importantes para processar grandes volumes de dados – Big Data; ou Big Earth Data, no caso de dados geográficoslevaram os mapeamentos colaborativos a um outro patamar. Com o aperfeiçoamento dos mecanismos de validação e de controle de dados, tais serviços de dados geográficos colaborativos e abertos poderão suprir a lacuna deixada pela legislação ou pelo governo, possibilitando maior acesso dos cidadãos aos produtos cartográficos. 

Como imagina que a cartografia colaborativa estará sendo usada daqui a 15 anos?

A Cartografia colaborativa vai continuar se desenvolvendo na Internet, com o aperfeiçoamento dos programas, no sentido do aumento da capacidade de armazenamento dos dados geoespaciais e da oferta de mais funções de geoprocessamento na interface de aplicativos. Em outras palavras, faremos mais e melhor. O importante é que continuaremos fazendo juntos, que é o espírito da colaboração envolvida. Também considero que mais equipamentos poderão acessar as bases colaborativas, como o OpenStreetMap, que ainda carecem do desenvolvimento de aplicações específicas compatíveis com as plataformas e sistemas operacionais de smartphonestablets e mesmo smartclocks. Como dito anteriormente, o surgimento da Cartografia 2.0 é contemporâneo ao desenvolvimento e popularização das redes sociais, o que representa o espírito de uma época na qual os dados e informações são compartilhados e o envolvimento dos indivíduos é extremamente valorizado.

Finalmente, agradeço à Geocracia pela oportunidade de divulgar algumas vantagens na utilização dos mapeamentos participativos (ou colaborativos). Quiçá isso sirva para despertar o interesse de novos mapeadores… Vamos mapear!

Veja também

Geo e Legislação

Finlandeses apresentam protótipo do 1º satélite de madeira

Foi apresentado nesta quarta-feira (12), em Helsinque, o protótipo do primeiro satélite de madeira do mundo. Conduzido pelas empresas finlandesas UPM Plywood, Arctic Astronautics e Huld, o projeto do nano-satélite Wisa Woodsat foi anunciado em abril e deve ser lançado até final deste ano a partir da Península Mahia, na

Não perca as notícias de geoinformação