O IBGE divulgou nesta terça-feira (11.nov.2025) um novo mapa-múndi suleado que coloca Belém e o Estado do Pará, em alusão à COP30. Segundo o instituto, a peça busca “trazer uma nova perspectiva do planeta” e simbolizar o protagonismo da capital paraense durante o evento climático. A orientação sul-para-norte rompe com a convenção mais difundida e dialoga com debates sobre percepção espacial, poder e geopolítica.
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Não é a primeira vez que o órgão recorre a mapas “descentrados” para provocar reflexão. Em maio, sob a gestão de Márcio Pochmann, o IBGE já havia apresentado um mapa suleado com o Brasil ao centro. A diferença agora é o efeito colateral local: ao sugerir, mesmo que indiretamente, uma “sentinela do Sul”, o gesto tropeça na identidade paraense — forjada justamente na ideia de Belém como sentinela do Norte, a única estrela ao norte de nossa bandeira. Para quem mora na foz do Amazonas, virar a representação cartográfica do planisfério não soa ousadia, pois continuam literalmente no centro do mundo independentemente da posição: parece desorientação e fere identidade.
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O paradoxo é pedagógico: para “valorizar” o Pará na COP30, o instituto rebatiza simbolicamente o seu ponto cardeal. A inversão rende manchete e brinde de evento, mas confunde um signo afetivo e histórico. Sentinelas não mudam de posto por causa de enquadramento gráfico. Se a ambição é reposicionar a Amazônia no debate climático, há caminhos menos autoindulgentes: acoplar o mapa a dados públicos sobre saneamento, riscos hidroclimáticos, emissões e adaptação urbana. Mas para isso é preciso menos marketing e mais clareza de propósito.
ISSN 3086-0415, edição de Luiz Ugeda.

