A Rádio França Internacional mostrou, na semana passada, que a ciência e o controle da energia deixaram de ser apenas temas econômicos ou ambientais para se tornarem peças centrais do tabuleiro geopolítico. No fórum “Futurapolis Planète 2025”, organizado pela revista Le Point, a discussão sobre inovação científica apareceu ligada à disputa por influência entre Estados, grandes grupos privados e blocos regionais. A mensagem que emerge é clara: quem dominar a combinação entre ciência, dados e redes energéticas terá mais capacidade de definir regras, padrões tecnológicos e até narrativas globais.
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No campo da energia, a imprensa francesa descreve uma nova corrida por infraestruturas capazes de suportar veículos elétricos, eletrodomésticos conectados e supercomputadores de inteligência artificial. Essa transformação não é neutra: países com redes modernas, capital para investir e acesso a matérias-primas críticas tendem a consolidar vantagem estratégica, enquanto Estados periféricos correm o risco de ficar presos a dependências tecnológicas e tarifárias. A transição energética, assim, não é apenas uma troca de fontes; é uma redistribuição de poder entre quem produz, quem regula e quem apenas consome.
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O “custo invisível” da digitalização, em especial o uso maciço de água para resfriar data centers, também ganha contornos geopolíticos. Centros de dados concentrados em determinados territórios ampliam assimetrias: regiões que abrigam essa infraestrutura passam a disputar recursos hídricos com agricultura e populações locais, ao mesmo tempo em que prestam serviços digitais a usuários espalhados pelo mundo. A conta socioambiental é local, mas o benefício econômico é globalizado, o que tende a alimentar conflitos entre governos nacionais, empresas de tecnologia e comunidades afetadas.
A leitura proposta pela revista Nouvel Obs, a partir do livro Énergie et inégalités do economista Lucas Chancel, encaixa-se nesse cenário: desde o neolítico, o excedente energético foi apropriado por elites e usado como vetor de dominação, e hoje essa lógica se projeta em escala internacional. Nacionalizações estratégicas, como a do setor elétrico francês no pós-guerra, e experiências de cooperativas de energia nos Estados Unidos são lembradas como exemplos de que não há “lei natural” que empurre o mundo para oligopólios privados. Em plena competição global por ciência, dados e kilowatts, o voluntarismo do poder público — nacional e supranacional — torna-se condição para que a transição energética não aprofunde a geopolítica das desigualdades.
ISSN 3086-0415, edição de Luiz Ugeda.

