O encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump na Casa Branca ocorre enquanto uma nova corrida mineral avança silenciosamente pelo território brasileiro. Dados analisados pela Geocracia IA apontam a existência de 2.684 processos minerários ativos relacionados a terras raras no país, concentrados principalmente em Minas Gerais, Bahia e Goiás. A maior parte ainda está em fase de pesquisa mineral, mas o movimento já altera dinâmicas territoriais ligadas a infraestrutura, logística, energia, uso da água e reorganização fundiária em municípios do interior brasileiro.
Em Minas Gerais, a expansão dos projetos em áreas como Poços de Caldas, Araxá e Alto Paranaíba consolida o estado como principal fronteira mineral da nova economia tecnológica. Empresas brasileiras, americanas e australianas disputam áreas ligadas à exploração de argilas iônicas e minerais utilizados em baterias, semicondutores, turbinas e equipamentos militares. O avanço desses projetos tende a ampliar a demanda por energia, transporte e estruturas industriais em regiões historicamente ligadas à mineração tradicional, mas agora inseridas em cadeias globais voltadas à transição energética e à indústria de alta tecnologia.
Na Bahia, os processos minerários avançam sobre municípios do semiárido e do interior do estado, especialmente em áreas ligadas à pesquisa mineral de terras raras e minerais críticos associados à eletrificação global. A expansão dessas cadeias tende a produzir novos conflitos envolvendo disponibilidade hídrica, licenciamento ambiental e ocupação territorial em regiões já marcadas por vulnerabilidades climáticas e baixa infraestrutura logística. A presença crescente de grupos estrangeiros também amplia a pressão sobre corredores de exportação, áreas ferroviárias e projetos de integração energética.
Goiás aparece como outro epicentro da disputa mineral internacional. A aquisição da mineradora Serra Verde, em Minaçu, por um grupo americano transformou o estado em peça estratégica da reorganização global das cadeias de terras raras. O projeto passou a integrar iniciativas ligadas à segurança industrial e militar dos Estados Unidos, incluindo contratos de fornecimento de longo prazo para componentes tecnológicos e sistemas de defesa. A movimentação acelerou debates em Brasília sobre soberania mineral, controle territorial e participação estrangeira em ativos considerados estratégicos.
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A corrida pelas terras raras também amplia a pressão sobre estados como Pernambuco, Espírito Santo, Ceará, Piauí e Amazonas, onde novos processos minerários começam a alterar expectativas econômicas locais e estratégias estaduais de desenvolvimento. Diferentemente do ciclo tradicional do minério de ferro, a nova mineração estratégica exige integração entre mineração, indústria química, energia, tecnologia e infraestrutura logística. Isso reposiciona municípios do interior brasileiro dentro de uma disputa internacional por cadeias produtivas ligadas à inteligência artificial, eletrificação e defesa.
A segunda negociação minerária brasileira
A movimentação em torno das terras raras recoloca o Brasil diante de uma negociação geopolítica que remete, em parte, ao período da Segunda Guerra Mundial. Na década de 1940, o governo de Getúlio Vargas utilizou a posição estratégica do país, suas reservas minerais e seu alinhamento internacional para negociar contrapartidas industriais com os Estados Unidos, culminando na criação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). O minério de ferro brasileiro deixava de ser apenas matéria-prima de exportação e passava a integrar um projeto nacional de industrialização pesada e reorganização territorial.
O cenário atual possui diferenças relevantes, mas reproduz uma lógica semelhante de disputa internacional por recursos considerados estratégicos. Se no século XX o eixo da negociação era o aço, a infraestrutura ferroviária e a indústria de base, agora o centro da disputa envolve minerais ligados a semicondutores, baterias, inteligência artificial, sistemas militares, eletrificação e transição energética. Minas Gerais, Goiás e Bahia passam a ocupar posição equivalente à de antigas fronteiras minerais estratégicas, inserindo o território brasileiro no centro da reorganização global das cadeias tecnológicas e industriais.
A principal questão política e territorial passa a ser qual será a contrapartida brasileira nessa nova corrida mineral. O debate deixou de envolver apenas royalties ou exportações e passou a incorporar temas como instalação de plantas industriais, refino químico, transferência tecnológica, infraestrutura logística, pesquisa científica e segurança econômica.
O PL de terras raras
O projeto de lei que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE) procura reorganizar a atuação do Estado brasileiro sobre minerais considerados essenciais para setores como transição energética, semicondutores, defesa, inteligência artificial e eletrificação. O texto parte da premissa de que terras raras e minerais críticos deixaram de ser apenas commodities minerais e passaram a integrar disputas ligadas à segurança econômica e tecnológica internacional. Para isso, a proposta cria uma política nacional específica voltada à pesquisa, lavra, transformação mineral e desenvolvimento das cadeias produtivas associadas a esses recursos estratégicos.
O núcleo do projeto está na criação do Comitê de Minerais Críticos e Estratégicos (CMCE), vinculado ao Conselho Nacional de Política Mineral e composto por ministérios ligados a Minas e Energia, Fazenda, Meio Ambiente, Relações Exteriores, Indústria e Ciência e Tecnologia. O órgão terá funções ligadas à definição dos minerais considerados estratégicos, monitoramento de riscos de suprimento, elaboração de estudos sobre infraestrutura, logística e potencial geológico e acompanhamento das cadeias globais de fornecimento. Na prática, o PL cria uma camada permanente de inteligência geoeconômica e territorial voltada à mineração estratégica brasileira.
Além da governança, o texto estabelece instrumentos econômicos e industriais voltados à agregação de valor no território nacional, incluindo incentivos fiscais, linhas de crédito, apoio ao licenciamento ambiental, estímulo ao beneficiamento mineral e investimentos obrigatórios em pesquisa e inovação tecnológica. O racional central da proposta é ampliar a capacidade de barganha brasileira na corrida global por minerais críticos, buscando transformar reservas minerais localizadas principalmente em Minas Gerais, Bahia e Goiás em instrumentos de atração de industrialização, processamento químico, transferência tecnológica e fortalecimento de cadeias produtivas ligadas à nova economia energética e digital.
ISSN 3086-0415, edição de Luiz Ugeda.

