Mapeamento revela quase 3 mil pistas clandestinas na Amazônia e expõe nova geografia logística do crime na floresta

Paulo Assad, em O Globo, revelou que a Amazônia Legal concentra atualmente 2.837 pistas de pouso clandestinas utilizadas para sustentar atividades ligadas ao garimpo ilegal e ao narcotráfico, segundo dados do Ministério da Defesa obtidos via Lei de Acesso à Informação. O levantamento do Censipam mostra que 814 dessas estruturas estão localizadas dentro de Terras Indígenas e Unidades de Conservação, evidenciando uma ocupação territorial paralela baseada em infraestrutura aérea irregular espalhada pela floresta.

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O mapeamento das pistas expõe uma mudança importante na dinâmica territorial dos crimes ambientais na Amazônia. Mais do que áreas isoladas de extração ilegal, os dados revelam a existência de corredores logísticos estruturados, capazes de conectar garimpos, rotas de contrabando, pistas improvisadas, rios e fronteiras internacionais. Mato Grosso, Pará e Roraima concentram a maior parte das ocorrências, enquanto Itaituba, no sudoeste paraense, aparece como principal núcleo dessa rede aérea clandestina, reunindo sozinho 218 pistas irregulares.

Especialistas apontam que a expansão dessas infraestruturas clandestinas está diretamente associada às dificuldades de monitoramento territorial em áreas de floresta densa e baixa presença estatal. A dimensão continental da Amazônia, somada às limitações de radares convencionais e à capacidade dos grupos criminosos de esconder pistas em clareiras mínimas ou trechos de estrada, tem transformado o sensoriamento territorial em um dos principais desafios operacionais das autoridades brasileiras.

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O avanço do mapeamento também evidencia uma reorganização territorial do garimpo ilegal após mudanças regulatórias recentes sobre comercialização de ouro. Com o endurecimento das regras de rastreabilidade e o aumento da fiscalização sobre o chamado “esquentamento” do minério, parte da logística criminosa teria migrado para rotas transfronteiriças voltadas à Guiana e outros países vizinhos. Nesse contexto, as pistas clandestinas passam a funcionar não apenas como apoio local ao garimpo, mas como elementos centrais de uma infraestrutura regional de circulação de ouro, combustível, armas e drogas.

A multiplicação dessas pistas também intensifica disputas sobre competências institucionais entre órgãos ambientais, aviação civil, forças armadas e polícias, enquanto operações de destruição física das estruturas têm produzido efeitos temporários. Para pesquisadores e integrantes do Ministério Público Federal, o próprio mapeamento dessas infraestruturas passou a ser um instrumento estratégico de leitura territorial da criminalidade na Amazônia, permitindo identificar padrões espaciais, zonas críticas de expansão e áreas prioritárias para fiscalização.

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ISSN 3086-0415, edição de Luiz Ugeda.

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