Narcotráfico ou terrorismo? A geopolítica ignorada pelo Brasil na nova estratégia dos EUA

Felipe Gonzales Saraiva da Rocha, em artigo publicado no Defesanet.com.br, chama atenção para a mudança radical promovida pelo governo Donald Trump: os cartéis de drogas latino-americanos passam a ser enquadrados como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs). Essa decisão não é apenas semântica. Ao deslocar o narcotráfico para o campo do terrorismo, os Estados Unidos inauguram uma nova fase da sua política externa de segurança: a autorização formal do emprego de meios militares contra atores não estatais que cruzam fronteiras e desafiam Estados nacionais. Trata-se de um movimento geopolítico que recoloca a América Latina no mapa da guerra global ao terrorismo.

A lógica é clara: ao utilizar as mesmas estratégias de intimidação, violência em massa e captura de territórios que grupos jihadistas, os cartéis passam a ser vistos como ameaças existenciais à segurança americana. A legislação dos EUA — como o Immigration and Nationality Act e a International Emergency Economic Powers Act — sustenta esse enquadramento e habilita o Pentágono a agir em solo estrangeiro, ainda que sem o aval dos governos locais. Nesse tabuleiro, México e Venezuela já são peças centrais, mas nada impede que o Brasil venha a ser incluído como alvo, dado o protagonismo logístico de seus portos e rotas de escoamento da cocaína andina.

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O contraste com a posição brasileira é gritante. Enquanto Washington reconhece o narcotráfico como forma de terrorismo transnacional, Brasília insiste em tratar facções como PCC, CV e FDN como meras “organizações criminosas” de caráter doméstico. Não se trata de semântica, mas de visão estratégica: ao enquadrar esses grupos de maneira limitada, o Brasil desconsidera seu poder paramilitar, sua influência territorial e sua capacidade de corroer a soberania nacional. A pergunta que emerge é inevitável: por que o Brasil não consegue compreender que o ponto central não está apenas na repressão policial, mas no reconhecimento de que se trata de uma guerra assimétrica?

O risco é que essa omissão seja lida pela comunidade internacional como complacência. Ao recusar classificar facções como terroristas, o Brasil abre mão de instrumentos de cooperação internacional e sinaliza incapacidade de enfrentar inimigos que já desafiam o monopólio estatal da força. Nessa ambiguidade, o país corre o perigo de assistir, em futuro próximo, a operações militares estrangeiras em seu território, justificadas pela lógica americana de proteção à sua segurança nacional. Mais do que uma divergência conceitual, trata-se de um impasse geopolítico que expõe a vulnerabilidade do Brasil em um cenário de crescente militarização da luta contra o narcotráfico.

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