A criação do mercado regulado de carbono no Brasil promete alterar a dinâmica de preços em diversos setores, mas especialistas destacam que os impactos econômicos da mudança climática já impõem custos crescentes à sociedade. Durante o seminário Agenda Climática e Oportunidades de Negócios, promovido pela Folha de S.Paulo com apoio da Vale, participantes discutiram os desafios e oportunidades da implementação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), previsto na lei sancionada no fim de 2023.
De acordo com o físico Shigueo Watanabe Junior, do Instituto ClimaInfo, a precificação das emissões pode gerar repasses nos preços, mas isso é preferível aos efeitos de catástrofes climáticas recorrentes. “Os custos da adaptação aparecem na inflação. Já os custos de não fazer nada se materializam em desastres naturais que recaem sobre todos — muitas vezes de forma mais desigual”, afirmou. Atualmente, o Brasil opera apenas com o mercado voluntário de carbono, onde empresas compram créditos por iniciativa própria.
A nova legislação exige que empresas com emissões anuais superiores a 25 mil toneladas de CO₂ equivalente ajustem suas operações a cotas de emissão definidas por um plano nacional ainda em elaboração. Setores de alta intensidade de carbono, como óleo e gás, mineração, cimento, siderurgia e papel e celulose, devem ser os primeiros a integrar o sistema. Para especialistas como Caroline Prolo e Laura Albuquerque, um dos principais gargalos será expandir a participação empresarial de algumas centenas, no mercado voluntário, para até 5 mil companhias que deverão se adequar à nova regulação.
Embora setores como o agronegócio não estejam inseridos no SBCE, sua exclusão não significa ausência de protagonismo. Atividades como proteção de florestas e restauração ecológica têm potencial para gerar créditos de carbono que podem ser negociados com empresas reguladas, contribuindo para a redução líquida de emissões e a geração de renda sustentável. Além disso, produtores rurais que investirem em recuperação ambiental tendem a ganhar competitividade nos mercados internacionais e resiliência diante de eventos climáticos extremos.
A regulamentação do SBCE está sendo encarada como um passo decisivo na estratégia climática brasileira. Especialistas concordam que, para além da redução de emissões, o sucesso do mercado dependerá de uma arquitetura institucional clara, apoio técnico às empresas e mecanismos que atraiam inclusive quem ainda está fora da regulação. O desafio não é apenas precificar o carbono, mas transformar esse valor em eficiência econômica, inovação e transição justa.
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