Um levantamento da Embrapa, a partir do Sistema de Inteligência Territorial Estratégica da Macrologística Agropecuária (Site-MLog), mostra que o mapa da produção agrícola brasileira se redesenhou desde o início dos anos 2000. O estudo evidencia a expansão da cana para além do cinturão paulista, a migração interna dos pomares de laranja em São Paulo, a pulverização da soja por novas fronteiras agrícolas e a concentração do milho em menos microrregiões — fenômenos explicados por fatores técnicos, sanitários e climáticos, além do ajuste fino do calendário produtivo com cultivares mais precoces.
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A cana-de-açúcar é o caso mais emblemático de mudança espacial. Em 2000, seis microrregiões respondiam por um quarto da produção nacional, com forte peso de São Paulo e Alagoas. Duas décadas depois, o grupo se recompôs: entraram Presidente Prudente e São José do Rio Preto (SP), Sudoeste de Goiás (GO) e Uberaba (MG), refletindo a marcha para Centro-Oeste e Triângulo Mineiro. No período, a produção nacional dobrou, impulsionada pela combinação de aumento de área e abertura de novas fronteiras, especialmente em Goiás e Mato Grosso do Sul.
Nos citros, São Paulo segue líder, mas os polos se deslocaram. Regiões tradicionais como Araraquara, Jaboticabal e São José do Rio Preto perderam participação, enquanto Avaré, Bauru, Botucatu e São João da Boa Vista ganharam tração. A incidência do greening (huanglongbing) ajuda a explicar a reorganização: mesmo com redução de área, o volume colhido se manteve estável nos últimos 20 anos, graças ao ganho de produtividade e à incorporação de novas áreas aptas.
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Entre os grãos, a soja continua se espalhando. Além dos clássicos Parecis e Alto Teles Pires (MT), Barreiras (BA) e Sudoeste de Goiás (GO), entram no radar Canarana (MT) e Dourados (MS), enquanto a cultura avança pelo Matopiba, norte de Mato Grosso, Pará e metade sul do Rio Grande do Sul. O milho seguiu na direção oposta: ainda que tenha crescido em volume, passou a se concentrar em menos microrregiões. Em 2023, Alto Teles Pires e Sinop (MT), Sudoeste de Goiás (GO) e Dourados (MS) reuniram a mesma fatia que, em 2000, estava diluída em 13 microrregiões — efeito direto do fortalecimento do milho como segunda safra e da necessidade de janelas climáticas mais precisas.
No algodão, a concentração é ainda mais nítida: a microrregião de Parecis (MT) respondeu sozinha por 25% da colheita nacional em 2023, após dividir essa liderança com outras áreas do estado no início da década. Para além do retrato setorial, o novo mapa oferece insumos estratégicos a formuladores de política e à iniciativa privada: ele orienta decisões sobre logística, armazenagem, bioenergia, seguro rural e financiamento, ao mesmo tempo em que ilumina onde ganhos de produtividade, sanidade vegetal e adaptação climática devem ser priorizados para sustentar a competitividade do agro brasileiro.
ISSN 3086-0415, edição de Luiz Ugeda.

