Sob pressão geopolítica, Brasil acelera corrida por nuvens locais e soberania dos dados

Henrique Cecci (Gartner), Lucas Vanzin (Eveo) e Rogério Mascarenhas (MGI), ouvidos por Época Negócios, são unânimes em apontar que o acirramento das tensões internacionais e o monopólio das big techs sobre a infraestrutura de nuvem estão a reconfigurar a forma como governos e empresas tratam seus dados. A combinação da reeleição de Donald Trump nos Estados Unidos, das guerras em curso e da disputa tecnológica entre grandes potências reintroduziu, de forma prática, o tema da soberania digital no debate brasileiro. Nesse cenário, cresce a preocupação com o risco de vigilância estrangeira e com a dependência de provedores globais sediados em jurisdições cujas leis podem conflitar com os interesses nacionais.

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No setor privado, o movimento de “geopatriação” — a repatriação de dados para nuvens locais ou regionais — vem ganhando tração, ainda que de forma desigual entre os setores e regiões do país. Estimativas do Gartner indicam que três em cada quatro clientes na Europa e no Oriente Médio devem buscar soluções locais de cloud nos próximos cinco anos, tendência que, segundo Cecci, também deve se acelerar no Brasil. O gatilho não é apenas geopolítico: custos operacionais, volatilidade cambial e previsibilidade regulatória entram no cálculo de empresas que passaram anos migrando sistemas para a nuvem pública de grandes plataformas globais.

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Nesse vácuo, provedores brasileiros de nuvem privada relatam aumento consistente na demanda por ambientes dedicados e híbridos. A Eveo, por exemplo, projeta dobrar de tamanho em 2025, impulsionada pela migração de sistemas antes hospedados em nuvens públicas internacionais para data centers no país. Estudo da companhia, o Cost Reality Report 2025, analisou faturas de 30 empresas de médio e grande porte e simulou cenários de nuvem pública, privada e híbrida, considerando horizonte de cinco anos, câmbio e custos de energia. As simulações indicam que, em determinados perfis de uso, a repatriação pode reduzir em até 60% o custo total de propriedade, sem excluir, porém, a necessidade de nuvens públicas para cargas mais elásticas.

A discussão não se restringe à iniciativa privada. Em junho, o governo federal lançou a “Nuvem do Governo”, infraestrutura de dados operada por Serpro e Dataprev, com previsão de mais de R$ 1 bilhão em investimentos e participação de grandes fornecedores de tecnologia em modelo de parceria. A proposta é concentrar em ambiente soberano dados considerados sensíveis, como informações fiscais, bancárias, empresariais e industriais. Segundo o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, 11 órgãos federais já iniciaram a migração e a meta é repatriar cerca de 20% dos dados públicos até o fim da atual gestão, reduzindo a dependência de estruturas localizadas fora do território nacional.

Especialistas apontam, porém, que nuvens soberanas e repatriação de dados não eliminam, por si sós, os riscos associados a falhas técnicas, incidentes de segurança e mudanças bruscas no contexto geopolítico. Para executivos como Igor Santos, da IBM Brasil, a resiliência passa pela adoção de múltiplos provedores, planos de contingência claros e arquitetura desenhada sob a premissa de que incidentes vão ocorrer. A experiência europeia, citada por Mascarenhas como referência, sugere que a combinação de regulação, infraestrutura local e diversificação de fornecedores tende a se tornar o novo padrão. No Brasil, o ritmo da transição vai depender da capacidade de coordenação entre governo, empresas e provedores de tecnologia em torno de uma mesma pergunta: onde, como e sob quais regras os dados estratégicos do país serão guardados.

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ISSN 3086-0415, edição de Luiz Ugeda.

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