Samuel Barreto, em artigo publicado no Um Só Planeta, analisa a pressão hídrica associada à expansão de data centers e ao uso crescente de inteligência artificial. O texto retira a “nuvem” do campo abstrato e chama atenção para instalações físicas que dependem de energia, sistemas de refrigeração e disponibilidade contínua de água nos lugares onde são implantadas.
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A repercussão ocorre na escala das bacias hidrográficas e dos municípios que recebem esses empreendimentos. Mesmo quando o serviço atende usuários distantes, o consumo de recursos, a ocupação do solo e a demanda por infraestrutura concentram-se em comunidades específicas, que podem já enfrentar competição entre abastecimento humano, agricultura, indústria e conservação ambiental.
A localização de um data center, portanto, não é apenas uma decisão de conectividade ou custo energético. A disponibilidade sazonal de água, a vulnerabilidade a secas, a capacidade dos sistemas locais e os impactos cumulativos de vários projetos precisam integrar o licenciamento e o planejamento territorial.
O debate também depende de transparência. Sem dados comparáveis sobre captação, consumo, reposição e tecnologia de resfriamento, governos e moradores têm dificuldade para estimar o efeito real de cada instalação e confrontar promessas de eficiência com a situação hídrica observada no território.
A expansão da inteligência artificial tende a intensificar essa discussão no Brasil, inclusive em regiões atraídas por energia renovável, incentivos fiscais e cabos de alta capacidade. Incorporar segurança hídrica, participação social e alternativas tecnológicas à seleção dos locais pode evitar que a infraestrutura digital transfira seus custos ambientais para municípios com menor capacidade de negociação.
ISSN 3086-0415, edição de Luiz Ugeda.

