Anatel prepara virada regulatória para uso sustentável de órbitas de satélites

A reunião conjunta dos Comitês de Infraestrutura (C-INT) e de Espectro e Órbita (CEO) da Anatel, realizada semana passada, sinaliza uma mudança de rota na forma como o Brasil lida com o uso de órbitas e frequências para serviços de satélite. O encontro abre caminho para uma Análise de Impacto Regulatório dentro da Agenda Regulatória 2025–2026, dedicada a avaliar a inclusão de critérios de sustentabilidade no uso de recursos orbitais. Na prática, o debate interno da agência já antecipa que futuras licenças para constelações LEO e MEO virão acompanhadas de exigências técnicas e ambientais mais rigorosas.

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O alerta regulatório emitido no mesmo Acórdão projeta efeitos diretos sobre a concorrência, a soberania digital e a gestão do “lixo espacial”. Ao discutir riscos e oportunidades, os comitês indicaram que novas regras podem envolver planos obrigatórios de desorbitamento, limites de tolerância de deriva, maior coordenação de tráfego orbital e comprovação de uso eficiente do espectro antes de novas autorizações. Grandes constelações tendem a enfrentar requisitos assimétricos, com métricas específicas de sustentabilidade orbital e maior escrutínio sobre impactos concorrenciais no mercado brasileiro de satélites.

Para as operadoras, o recado é claro: a expansão acelerada de redes não geoestacionárias no país — já autorizado para sistemas como Starlink, OneWeb, Kuiper, Telesat, Iridium e outros — passa a ser observada sob a lente da capacidade orbital, da proteção a serviços GEO e da convivência com radioastronomia e missões científicas. Estudos internacionais que estimam desde limites de dezenas de milhares até milhões de satélites em órbita foram apresentados como base para possíveis decisões futuras. Quanto mais permissivo o cenário de ocupação, maior a exigência de manobrabilidade, remoção pós-missão, transparência de dados de rastreamento e coordenação internacional.

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O encontro também teve reflexos sobre a política de conectividade. Os conselheiros reforçaram que as constelações NGEO se tornaram peça central para levar banda larga a regiões remotas — Amazônia, Centro-Oeste, Semiárido, fronteiras e áreas de baixa densidade populacional. Ao mesmo tempo, alertaram que isso exige cuidado redobrado com interferências em redes móveis, radiodifusão e zonas de silêncio científico. A forma como a Anatel calibrar limites de potência, planejamento de espectro e regras de convivência entre redes terrestres e satelitais influenciará diretamente a qualidade e o custo da internet em áreas rurais e isoladas.

Do ponto de vista internacional, a reunião funciona como etapa preparatória para a posição brasileira na Conferência Mundial de Radiocomunicações de 2027 (WRC-27) e em fóruns como UIT, COPUOS, UNOOSA e CITEL. Entre as medidas já sugeridas estão a exigência de ponto de contato para coordenação orbital e SSA, cooperação mais intensa com a Agência Espacial Brasileira e o Comando da Aeronáutica, além de parcerias com universidades para modelagem de capacidade orbital. Os encaminhamentos indicam que a sustentabilidade espacial entra de vez na agenda regulatória brasileira, com impacto duradouro sobre empresas, políticas de conectividade e a própria presença do país na nova economia espacial.

ISSN 3086-0415, edição de Luiz Ugeda.

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