Cadastro territorial trava na linguagem: oficina sobre ontologia expõe desafio estrutural da geoinformação no Brasil

A realização da primeira oficina sobre ontologia pelo Comitê de Cadastro Territorial da Comissão Nacional de Geoinformação (CONGEO) evidencia um ponto pouco visível, mas central para a governança territorial no Brasil: a ausência de uma base conceitual comum entre instituições que produzem e utilizam dados geoespaciais. O encontro, realizado de forma remota nos dias 30 e 31 de março, reuniu técnicos e especialistas para discutir fundamentos que, embora abstratos, têm impacto direto na integração de cadastros no país.

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A iniciativa parte de um diagnóstico recorrente no setor: os entraves à integração cadastral não são apenas tecnológicos ou institucionais, mas também semânticos. Órgãos distintos operam com definições, classificações e estruturas próprias, o que dificulta a interoperabilidade entre bases de dados e compromete a consistência das informações territoriais. Nesse contexto, a ontologia — entendida como a formalização de conceitos e relações — surge como tentativa de organizar esse “ruído estrutural”.

A oficina foi conduzida pelo professor Maurício Almeida, especialista em modelagem conceitual, e abordou desde noções básicas até aplicações mais avançadas, como ontologias na Web Semântica e na Inteligência Artificial. Também foram discutidos modelos de dados, linguagens de marcação e a Basic Formal Ontology (BFO), padrão internacional voltado à organização de sistemas conceituais. Ainda que técnicos, os temas apontam para um esforço de alinhamento que antecede qualquer tentativa de integração efetiva de sistemas.

O movimento revela uma mudança de abordagem: antes de integrar bases, é necessário alinhar significados. Sem isso, iniciativas de interoperabilidade tendem a produzir sobreposições, inconsistências ou interpretações divergentes sobre o mesmo território. Na prática, isso afeta desde políticas públicas até operações privadas que dependem de dados territoriais confiáveis.

Apesar do avanço, o desafio permanece em escala. A construção de uma ontologia cadastral nacional depende não apenas de capacitação técnica, mas de adesão institucional e coordenação entre diferentes níveis de governo. Sem esse alinhamento mais amplo, há risco de que o esforço se restrinja a um grupo técnico, com impacto limitado na estrutura fragmentada da geoinformação no país.

ISSN 3086-0415, edição de Luiz Ugeda.

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