A carta de intenções assinada pela canadense Origen Resources para adquirir um projeto de terras raras no interior do Piauí colocou o estado no radar da geopolítica mineral. O pacote de concessões soma 3.978 hectares, distribuídos em dois blocos, e vem acompanhado de direito de preferência sobre outras cinco áreas exploratórias, abrindo espaço para a formação de um potencial distrito minerário de terras raras no Nordeste. Os primeiros resultados de amostras de superfície, com teor de até 1,61% de óxidos totais de terras raras, já são suficientes para atrair investidores em busca de insumos estratégicos para ímãs permanentes, baterias e equipamentos de alta tecnologia.
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Por trás da movimentação empresarial, porém, está um desafio bem menos visível ao mercado: o mapeamento do território. Embora o Piauí figure entre os estados com maior potencial para ocorrência de terras raras, boa parte desse potencial segue no escuro do ponto de vista geológico. Hoje, apenas 27% do território continental brasileiro está mapeado na escala 1:100.000, considerada mais detalhada; em outras palavras, mais de 70% do subsolo nacional ainda é, na prática, um “mapa em branco” quando o assunto são dados públicos de base para orientar exploração, licenciamento e políticas de desenvolvimento.
Foi nesse contexto que o governador Rafael Fonteles se reuniu, em Brasília, com a diretora-presidente do Serviço Geológico do Brasil (SGB), Sabrina Góis, para discutir parcerias voltadas à ampliação do mapeamento mineral no estado. A agenda inclui desde a expansão de levantamentos geológicos e geoquímicos até o aperfeiçoamento de bases de dados e mapas em escala mais fina, capazes de orientar tanto empresas quanto o próprio poder público. A ideia é combinar o interesse privado em projetos de terras raras com uma estratégia de conhecimento do território que permaneça como legado para o estado, independentemente do ciclo de um empreendimento específico.
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Na prática, o avanço do mapeamento será decisivo para definir como e para quem a corrida pelas terras raras no Piauí se traduzirá em benefícios concretos. Com uma due diligence de 150 dias em curso e compromissos mínimos de investimento previstos, o movimento da Origen Resources ocorre em paralelo à necessidade de garantir transparência sobre o que existe no subsolo, quais áreas são mais sensíveis do ponto de vista ambiental e quais comunidades podem ser afetadas. Sem mapas detalhados, o estado entra na disputa global por minerais críticos em posição frágil; com um mapeamento robusto, passa a negociar em outra chave — definindo prioridades, exigências de compensação e condições para que a mineração de terras raras seja vetor de desenvolvimento regional, e não apenas mais um ciclo de extração.
ISSN 3086-0415, edição de Luiz Ugeda.

