Um mapa manuscrito do século 17, atribuído ao naturalista e cartógrafo Georg (George) Marggraf e hoje guardado em uma biblioteca da Universidade Harvard, passou a ser tratado por pesquisadores como uma peça-chave para localizar possíveis sítios dos quilombos mais antigos associados ao complexo de Palmares, entre Pernambuco e Alagoas. O documento — uma versão original de “Brasilia Qua Parte Paret Belgis” — foi identificado no acervo e, depois, transposto para uma base cartográfica atual, permitindo cruzamentos com imagens de satélite e a marcação de áreas consideradas sensíveis para prospecção arqueológica.
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O achado também recoloca em evidência um contraste histórico: a cartografia neerlandesa produzida durante o Brasil Holandês (1630–1654) foi, em muitos casos, mais “descritiva” e operacional do que a portuguesa contemporânea. Sob a administração de Johan Maurits (Nassau), o projeto colonial neerlandês investiu em levantamentos que combinavam interesses militares, comerciais e científicos, com mapas voltados à circulação e ao controle do território. Já a cartografia portuguesa do período, embora sofisticada em tradições náuticas, esteve frequentemente associada a lógicas de segredo estatal e a representações menos abertas do interior, o que ajuda a explicar por que registros neerlandeses às vezes preservam topônimos, cursos d’água e referências úteis para leituras territoriais atuais.
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Na prática, o que muda com esse tipo de material não é apenas a “curiosidade histórica”, mas a possibilidade de reduzir incertezas metodológicas em pesquisas de campo. Relatos do século 17 sobre expedições contra quilombos mencionavam rios e serras com nomes em desuso e distâncias aproximadas, dificultando a identificação precisa dos locais. Ao oferecer uma representação coeva que dialoga com esses relatos, o mapa funciona como um intermediário técnico entre fontes textuais antigas e geotecnologias contemporâneas, encurtando o caminho para hipóteses verificáveis por escavação e prospecção.
O fato de o documento estar hoje fora do Brasil, em Harvard, é parte da própria história desse acervo. Pesquisadores citados na reportagem descrevem a dispersão de materiais do período holandês ao longo do tempo, com circulação por coleções privadas e instituições estrangeiras. Essa trajetória ajuda a entender por que certos originais — mais precisos do que reproduções sucessivas sujeitas a ruídos de cópia e impressão — podem reaparecer como fontes de referência para reconstituir paisagens históricas e disputas de memória no presente.
Há ainda um elo simbólico com o Atlântico neerlandês no pós-1654: após a retomada portuguesa de Recife, parte da população ligada ao período holandês deixou a região e houve fluxos para outros pontos do mundo atlântico; um episódio frequentemente documentado é o desembarque, em 1654, de um grupo de 23 refugiados judeus que havia partido de Recife e chegou a Nova Amsterdã, na então Nova Holanda. Embora não explique diretamente a presença do mapa em Harvard, essa circulação ajuda a contextualizar como pessoas, documentos e memórias do Nordeste holandês se deslocaram e foram preservados (ou reclassificados) fora do país, enquanto, no Brasil, muitas dessas pistas permaneceram pouco acessíveis por décadas.
ISSN 3086-0415, edição de Luiz Ugeda.

