Mas o Brasil tem montanhas? Nova classificação do relevo diz que sim

Durante décadas, a ideia de que o Brasil não teria montanhas circulou em livros, aulas e debates acadêmicos, apesar da existência de picos com quase 3 mil metros de altitude no território nacional. Agora, após seis anos de discussões, análises cartográficas e expedições de campo, um grupo de geógrafos e geólogos coordenado pelo IBGE consolidou um novo entendimento: o país tem, sim, montanhas, distribuídas por 14 estados, de Roraima a Santa Catarina.

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A redefinição não se baseia apenas na altitude. Segundo os especialistas envolvidos no Sistema Brasileiro de Classificação de Relevo, montanhas são formas de relevo agrupadas, com pelo menos 300 metros de desnível em relação às áreas vizinhas, topos aguçados e encostas íngremes. Por esse critério, o Brasil abriga cadeias e maciços montanhosos que antes eram classificados de outras formas, enquanto elevações isoladas ou de topo aplainado continuam fora dessa categoria.

A revisão muda a leitura tradicional sobre a geografia física do país e recupera uma interpretação antiga, já presente em estudos de autores como Luiz Flores de Moraes Rego e Aziz Ab’Saber. A diferença, agora, é que o reconhecimento resulta de um esforço coletivo mais amplo, liderado pelo IBGE em parceria com o Serviço Geológico do Brasil, universidades e entidades científicas. O instituto ainda deve divulgar um mapa nacional reunindo as montanhas brasileiras como parte da atualização do relevo do país.

Entre as áreas reconhecidas estão trechos das serras do Mar, da Mantiqueira e do Espinhaço, além de formações no Nordeste, no Centro-Oeste e na Amazônia. Em alguns casos, o trabalho de campo alterou classificações anteriores. O maciço do Urucum, em Mato Grosso do Sul, por exemplo, deixou de ser visto como planalto e passou a ser identificado como montanha. Já o monte Roraima, apesar da altitude elevada, segue classificado como planalto por causa do topo plano.

Para os pesquisadores, a nova classificação tem efeitos que vão além da nomenclatura. O reconhecimento das montanhas pode influenciar políticas de conservação, planejamento territorial, turismo e prevenção de desastres. Áreas montanhosas concentram riscos conhecidos de deslizamentos, agravados pela ocupação urbana e agrícola em encostas íngremes, como já se viu em tragédias recentes e históricas em estados como Rio de Janeiro e São Paulo.

A revisão também reforça a importância ambiental desses territórios. As montanhas brasileiras abrigam espécies raras, ambientes isolados e remanescentes de flora antiga, além de funcionarem como áreas estratégicas para a produção de água e a conservação da biodiversidade. Ao reconhecer formalmente essas formações no mapa do relevo nacional, o IBGE encerra uma controvérsia conceitual e abre espaço para uma nova leitura do território brasileiro.

Para ler a matéria na Revista FAPESP, clique aqui.

ISSN 3086-0415, edição de Luiz Ugeda.

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