Nos bastidores do Encontro Estadual de Líderes Rurais, em Pinhais, Paraná, na sexta-feira (5 de dezembro de 2025), o anúncio do CertiCAR foi menos um ato isolado e mais a consolidação de uma negociação que vinha sendo construída ao longo do ano entre governo e setor produtivo. A pressão era conhecida: o Paraná tinha cerca de 540 mil imóveis rurais cadastrados no início de 2025, mas apenas 3,9 mil análises concluídas – menos de 1% em conformidade. A mudança de patamar, com 220 mil imóveis considerados regulares, não aconteceu da noite para o dia. Ela foi preparada com ajustes normativos (o Decreto 11.711/2025) e um desenho técnico pensado para destravar um gargalo que já começava a travar crédito rural, certificações e projetos de sustentabilidade no Estado.
A “análise dinamizada” prevista no decreto é a chave desse giro. Em vez da leitura caso a caso, o sistema passou a cruzar automaticamente as informações declaradas no Cadastro Ambiental Rural com bases cartográficas homologadas pelo próprio Estado, reduzindo a dependência de bases federais e permitindo aplicação de faixas de tolerância previstas em lei. Na prática, isso significa reconhecer pequenas discrepâncias de área e traçado como ajustáveis, e não como motivo para travar o processo. Fontes que acompanharam o desenho do CertiCAR relatam que FAEP, Instituto Água e Terra (IAT) e Secretaria de Agricultura formaram um grupo de trabalho para calibrar esses parâmetros, justamente para equilibrar rapidez de validação com risco jurídico futuro.
O contexto político e econômico ajuda a explicar a urgência. De um lado, produtores pressionavam por regularização para acessar linhas de financiamento com juros diferenciados, programas de incentivo ambiental e certificações exigidas por mercados mais exigentes em rastreabilidade. De outro, o governo estadual buscava demonstrar capacidade de implementar o Código Florestal e responder a cobranças crescentes sobre desmatamento e conformidade ambiental na agricultura. A explosão de validações – um salto de mais de 5.000% no número de CARs regularizados entre abril e dezembro, segundo dados oficiais – reforça o discurso de eficiência, mas também acende uma luz amarela entre técnicos que temem que parte dessa checagem “em massa” tenha de ser revisitada em eventuais auditorias federais ou por órgãos de controle.
Nos próximos meses, a aposta é sofisticar a plataforma, incorporando dados como CEP rural, camadas adicionais de geoinformação e indicadores de sustentabilidade, o que pode transformar o CertiCAR em um hub de dados territoriais para políticas públicas e para a própria cadeia produtiva. Mas essa evolução virá acompanhada de novos testes: como lidar com casos em que a análise automatizada divergir de vistorias em campo? Como compatibilizar a lógica “dinamizada” do Paraná com eventuais mudanças nas diretrizes federais sobre o CAR? As respostas vão indicar se o Estado consolidará um modelo exportável de regularização em larga escala ou se o avanço de 2025 será visto, no futuro, como um primeiro passo que exigiu ajustes finos para manter equilíbrio entre velocidade, segurança jurídica e proteção ambiental.

