Novo índice mapeia risco climático urbano em todos os municípios brasileiros

Anderson Kazuo Nakano e Henry Tomio Kreniski Maru, em artigo publicado na Folha de S.Paulo, apresentam um retrato preocupante do risco climático nas cidades brasileiras em plena preparação para a COP30, em Belém. A partir do Projeto Adaptação, coordenado pelo Ministério das Cidades em parceria com o Observatório das Metrópoles, os autores descrevem como o país começa a organizar, em escala nacional, um mapa dos desastres climáticos urbanos. No centro desse esforço está o Índice de Riscos Urbanos Climáticos (Iruc), elaborado no âmbito do Observatório de Lutas Urbanas e Políticas Públicas (Olupp), da Unifesp, para medir a combinação entre perigos, exposição e vulnerabilidade em todos os 5.570 municípios do país.

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O Iruc já está sendo usado pelo governo federal como critério técnico para selecionar os 50 municípios que integrarão a primeira etapa do Projeto Adaptação (Edital SNDUM 03/2025). Essas cidades receberão apoio financeiro e suporte especializado para revisar planos diretores, legislações urbanísticas e instrumentos de gestão de risco, com foco em intervenções preventivas em áreas suscetíveis a enchentes, deslizamentos, secas extremas e outros eventos associados às mudanças climáticas. A ideia é usar a evidência produzida pelo índice para orientar investimentos e priorizar territórios onde o risco urbano climático é mais agudo.

O artigo mostra que o Iruc foi construído com base em um extenso levantamento de desastres registrados pelo Atlas Digital de Desastres no Brasil (1991–2024) e dados recentes do Censo 2022. Entre 1991 e 2024, inundações afetaram 26,9 milhões de pessoas e 881 mil moradias; alagamentos atingiram 4,5 milhões de pessoas e 181 mil domicílios; enxurradas impactaram 29,9 milhões de pessoas e 735 mil habitações; e movimentos de terra alcançaram 4,9 milhões de pessoas e 66 mil casas. Esses dados alimentam três componentes principais: o Índice de Desastres (frequência e tipo de evento), o Índice de Exposição (população, moradias, infraestrutura e serviços afetados) e o Índice de Vulnerabilidade, que combina sensibilidade social e capacidade adaptativa dos municípios.

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Os resultados apontam que oito municípios apresentam risco urbano climático muito alto (Iruc > 1) — Alenquer (PA), Bandeira do Sul (MG), Campo Grande (MS), Coronel Sapucaia (MS), Cuiabá (MT), Ipojuca (PE), Oriximiná (PA) e Padre Carvalho (MG) — e outros 603 registram risco alto (entre 0,25 e 1). No total, 611 cidades são tratadas como prioritárias: 80 na Amazônia, 290 na Caatinga, 56 no Cerrado, 168 na Mata Atlântica, 16 no Pampa e 1 no Pantanal, sem que os municípios de risco médio (2.154) e baixo (2.805) deixem de exigir atenção. Para os autores, diante do avanço das emergências climáticas, políticas de adaptação urbana precisam ser guiadas por justiça social, racial, espacial e ambiental — única forma de garantir que o “mapa do risco” não se converta, na prática, em um mapa de abandono das populações mais vulneráveis.

Para ler o artigo, clique aqui.

ISSN 3086-0415, edição de Luiz Ugeda.

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