Luiz Ugeda*
O Brasil de 2025 deixou para trás a promessa de juventude infinita. Não se trata de afirmar que a demografia acabou, mas de sugerir — com a expressão pós-demográfico — uma ruptura com o modelo que por décadas sustentou políticas públicas, crescimento urbano e estrutura institucional. Os dados do Censo 2022, divulgados pelo IBGE semana passada, revelam um país que já não pode ser pensado segundo as premissas do “Brasil jovem”: menos filhos, mais migração e uma população que envelhece antes de enriquecer.
A taxa de fecundidade atingiu o menor patamar da história, abaixo do nível de reposição populacional. A maternidade tornou-se mais tardia, mais rara e mais seletiva. Ao mesmo tempo, o número de mulheres que encerram o ciclo reprodutivo sem filhos cresce em todas as regiões. O mito da nação em crescimento vegetativo contínuo cede lugar a uma nova realidade, demograficamente murcha.
A dinâmica migratória também se inverte. Pela primeira vez, São Paulo tem saldo migratório negativo. O Rio de Janeiro perdeu população estrangeira. Enquanto isso, Santa Catarina, Paraná e Mato Grosso consolidam-se como novos destinos populacionais, atraindo migrantes internos e estrangeiros — sobretudo venezuelanos, que já superaram os portugueses como principal grupo de imigrantes no país. A reconfiguração geodemográfica é tão marcante que até o velho movimento “O Sul é o meu país” ressurgiu — não mais pelas mãos do Rio Grande do Sul, hoje demograficamente esvaziado e em retração, mas agora turbinado por Santa Catarina, cuja pujança populacional e econômica o coloca como protagonista da nova geografia federativa.
Essa transição impõe desafios profundos ao pacto federativo. O modelo de financiamento de políticas públicas, calcado na ideia de um país jovem e em expansão populacional, já não se sustenta. Estados que perdem gente perdem também receita e influência. Municípios que crescem rapidamente enfrentam pressão por serviços públicos sem o devido suporte fiscal. A geometria da representação política e do investimento público precisa ser redesenhada.
Mas, em vez de adaptar a estrutura do Estado à nova geografia da população, o Congresso preferiu desconsiderá-la. A recente decisão da Câmara dos Deputados de ampliar de 513 para 531 o número de parlamentares ilustra bem esse descompasso. A metáfora do futebol é perfeita: é como se o rebaixamento fosse abolido no Brasileirão — ninguém desce, todos sobem, e o campeonato incha indefinidamente. A regra anterior previa que estados com queda populacional perdessem cadeiras, e os que crescessem, ganhassem. Mas, para não contrariar os estados em declínio, optou-se por inflar a Câmara e proteger os feudos políticos, distorcendo ainda mais o equilíbrio representativo.
O país pós-demográfico não é apenas um país com menos filhos — é um país em fuga de si mesmo. Enquanto o Estado insiste em preservar estruturas de representação anacrônicas, milhões de brasileiros procuram na memória genealógica o passaporte para outro continente. Nunca tantos recorreram aos sobrenomes dos avós para reconstruir a nacionalidade em solo europeu. Essa busca, que combina desilusão social, instinto de sobrevivência e uma ruptura geracional silenciosa, revela mais que um desejo de mobilidade: expressa uma perda de horizonte interno. Quando uma nação começa a exportar seus jovens e inflar seu parlamento, algo se rompe entre o corpo demográfico e sua alma política. A democracia polarizada, sem gente e sem projeto, corre o risco de tornar-se apenas um ritual de permanência — enquanto o país real, móvel e desigual, já se movimenta noutro mapa.
Advogado e geógrafo, é doutor em geografia com pós-doutorado em direito; fundador do portal Geocracia.

