Antártida sem gelo: novo mapa revela um “continente oculto” sob a camada branca

British Antarctic Survey

O British Antarctic Survey (BAS) divulgou em março o Bedmap3, a versão mais detalhada até hoje da topografia da Antártida sem gelo. O conjunto integra mais de seis décadas de levantamentos — por satélites, aviões, navios e até trenós — e recompõe o relevo de todo o continente como se seus 27,17 milhões de km³ de gelo tivessem sido removidos. Segundo os autores, essa visão “a nu” melhora a compreensão das montanhas, vales e canhões subglaciais que governam o escoamento do gelo e, portanto, a resposta da Antártida às mudanças climáticas.

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O Bedmap3 se baseia em 277 campanhas que geraram 82 milhões de pontos “brutos”, consolidados numa malha de 500 metros — mais que o dobro do usado na edição anterior. O resultado atualiza medidas-chave: área total de gelo (13,63 milhões de km²), espessura média (1.948 m, incluindo plataformas) e potencial de elevação do nível do mar caso tudo derretesse (58 metros). Esses números ancoram modelos que projetam riscos costeiros globais e ajudam a priorizar monitoramento em regiões vulneráveis.

Uma revisão de grande impacto deslocou o local com a maior espessura conhecida. Antes, o “ponto recordista” ficava na Bacia de Astrolabe (Terra Adélia). Agora, a interpretação combinada dos dados aponta para um cânion sem nome em Wilkes Land (76,052°S; 118,378°E), onde o gelo atinge 4.757 metros — mais de 15 vezes a altura do The Shard, em Londres. A descoberta refina parâmetros para simular como água oceânica mais quente pode invadir áreas de base rochosa abaixo do nível do mar, acelerando o degelo por baixo.

Além do “recorde”, o novo mapa fechou lacunas em torno do Polo Sul, da Península Antártica, das Montanhas Transantárticas e de nunataks (picos expostos que perfuram o manto de gelo). Para Peter Fretwell, coautor e especialista em mapeamento do BAS, o quadro geral é de uma folha de gelo mais espessa e com maior volume apoiado em leito abaixo do nível do mar — um arranjo estrutural que torna partes do continente mais sensíveis ao aquecimento dos oceanos. A equipe disponibilizou os dados abertos para apoiar pesquisas e decisões de adaptação costeira em escala global.

ISSN 3086-0415, edição de Luiz Ugeda.

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