O avanço acelerado da inteligência artificial começa a pressionar um insumo pouco visível fora da indústria, mas decisivo para o funcionamento de toda a economia digital: a memória. Um relatório citado pelo The Wall Street Journal aponta que, até 2026, centros de dados dedicados à IA podem absorver cerca de 70% da produção mundial de chips de memória. A projeção ajuda a explicar a alta recente de preços e o risco crescente de escassez em mercados que vão muito além do setor de tecnologia.
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A expansão desses centros levou fabricantes de semicondutores a redirecionarem capacidade produtiva para memórias de alto desempenho, como HBM e DDR5, essenciais para o treino e a execução de modelos de IA em larga escala. Esse movimento, no entanto, tem custo de oportunidade: linhas antes voltadas a computadores pessoais e dispositivos de consumo foram reduzidas ou suspensas, alterando o equilíbrio tradicional da cadeia global de suprimentos.
Os efeitos já começam a aparecer em setores diversos. Além do mercado de PCs, áreas como a indústria automotiva, a fabricação de smartphones, televisores e eletrodomésticos conectados tendem a sentir o impacto da concentração de oferta. Estimativas indicam que a memória pode responder por até 30% do custo final de um smartphone e cerca de 10% do preço de outros eletrônicos, tornando esses produtos mais sensíveis a qualquer variação de disponibilidade.
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Com menos chips destinados ao consumo em massa, a tendência é de preços mais altos e possíveis gargalos de abastecimento. Consultorias do setor já revisam projeções e apontam risco de retração em mercados tradicionais, como PCs e celulares, num cenário que lembra a escassez de semicondutores durante a pandemia — com a diferença de que, agora, a origem do problema está em uma mudança estrutural da demanda, e não em uma interrupção pontual da produção.
O que se desenha é uma nova lógica industrial, na qual a inteligência artificial ocupa o centro das decisões estratégicas. Ao priorizar data centers cada vez maiores e mais numerosos, a indústria de semicondutores cria um sistema mais ajustado às necessidades da IA, mas potencialmente mais instável para o restante da economia digital. O desafio dos próximos anos será equilibrar essa redistribuição de recursos sem comprometer o acesso a componentes básicos que sustentam o consumo tecnológico global.
ISSN 3086-0415, edição de Luiz Ugeda.

