Disputa geopolítica por alimentos reacende debate sobre Brasil como “supermercado do mundo”

Fábio Moitinho, na Forbes Agro, trouxe que no painel “O Brasil que Move o Mundo”, realizado durante o Forbes Agro100 em São Paulo, o CEO global da JBS, Gilberto Tomazoni, e o cofundador da Timbro Trading Brasil, Bruno Romano, discutiram o lugar do Brasil na nova geopolítica dos alimentos. Mediados pelo jornalista Cláudio Gradilone, editor da Forbes Money, eles foram provocados a avaliar como o país pode ampliar sua presença em cadeias globais marcadas por tarifas, sanções cruzadas, choques logísticos e disputas por segurança alimentar entre grandes potências. A questão central foi se o Brasil conseguirá transformar sua escala produtiva em influência efetiva em um cenário de tensões comerciais e de clima.

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A resposta dos executivos partiu da experiência concreta de operar sob volatilidade internacional. Tomazoni descreveu a estratégia de diversificação geográfica da JBS como uma forma de mitigar riscos associados a ciclos econômicos e decisões políticas em cada região. Ao atuar de forma combinada em Brasil, Estados Unidos e Austrália, a companhia tenta compensar quedas em determinados mercados com oportunidades em outros, em um ambiente em que decisões regulatórias ou tarifas podem redesenhar fluxos de comércio de um dia para o outro. Romano, pela ótica da trading, lembrou que o encarecimento do frete e a falta de navios em 2025 tiveram origem em gargalos globais, não apenas domésticos.

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O painel projetou o Brasil como candidato a “supermercado do mundo” em um contexto em que alimentos e bioenergia ganham peso na diplomacia econômica. Tomazoni afirmou que o país ainda não converteu plenamente seu potencial produtivo em poder de mercado, citando o contraste entre o tamanho do rebanho bovino brasileiro e a produção de carne dos Estados Unidos. Romano acrescentou que a disputa atual não se limita a vender mais volume, mas a capturar diferenciação em meio ao avanço de políticas de “protecionismo verde” e acordos comerciais que incluem cláusulas ambientais e sociais. Nesse cenário, marca-país e previsibilidade regulatória passam a ser componentes da estratégia de inserção internacional.

Ao tratar de entraves, os debatedores apontaram a infraestrutura e a narrativa ambiental como pontos sensíveis na disputa geopolítica. Romano avaliou que a dificuldade de escoar a produção até os portos limita a capacidade do Brasil de responder rapidamente a choques de oferta em outros países, reduzindo espaço para ganhar mercado em crises. Tomazoni relatou episódios em que a JBS perdeu negócios por associações negativas com desmatamento, mesmo quando, segundo ele, os sistemas de controle indicavam conformidade com a legislação. A disputa, indicou, não se trava apenas em toneladas e preços, mas também na arena da opinião pública internacional e das regras de sustentabilidade.

Na avaliação de Tomazoni e Romano, o movimento de países como Índia e nações africanas em busca de novos fornecedores abre janelas de oportunidade, mas exige coordenação entre governo e setor privado. Mecanismos de financiamento, garantias de pagamento e acordos que deem segurança jurídica às operações foram citados como condições para que o Brasil consolide presença em mercados emergentes e reduza sua dependência de poucos compradores. A combinação de ganhos de produtividade, melhoria logística, comprovação de rastreabilidade ambiental e atuação diplomática consistente será, segundo o diagnóstico apresentado, o que definirá se o país ocupará um lugar central na geopolítica dos alimentos ou continuará como um grande fornecedor entre muitos.

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ISSN 3086-0415, edição de Luiz Ugeda.

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