Desde o início deste mês, satélites militares dos Estados Unidos deixaram de compartilhar dados meteorológicos sobre a atmosfera e os oceanos com instituições civis e o público internacional. A medida, anunciada pelo Departamento de Defesa americano sob a justificativa de riscos de cibersegurança, preocupa cientistas e meteorologistas em todo o mundo, que dependem dessas informações para prever eventos climáticos extremos. A decisão foi divulgada pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), que teve cortes recentes de orçamento e demissões em massa.
Desde a década de 1960, os EUA gerenciam o programa Defense Meteorological Satellite Program (DMSP), hoje operado pela Força Aérea a partir de Nebraska. Atualmente, três satélites estão ativos, fornecendo dados sobre cobertura de nuvens, radiação térmica, temperatura e umidade atmosférica. Esses registros eram processados pelo Centro de Meteorologia Numérica e Oceanografia da Marinha americana e repassados diariamente a instituições civis, servindo de base para previsões meteorológicas globais.
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A suspensão do compartilhamento cria uma lacuna significativa, principalmente para pesquisas sobre tempestades, furacões, gelo polar e mudanças climáticas. O National Snow and Ice Data Center (NSIDC), por exemplo, terá dificuldades para monitorar o degelo do Ártico, essencial para traçar rotas marítimas seguras. Sem acesso aos dados americanos, o centro planeja recorrer a informações de satélites japoneses, mas especialistas alertam que a substituição pode não atingir a mesma precisão.
Meteorologistas afirmam que a perda será sentida de forma mensurável. Para Peter Knippertz, do Instituto de Tecnologia de Karlsruhe (KIT), a atmosfera é um “sistema caótico”, no qual pequenas variações podem ter grandes impactos nas previsões. Ele avalia que os dados de micro-ondas sobre temperatura e umidade, agora restritos, tinham influência desproporcionalmente grande na confiabilidade das análises. Em regiões mais vulneráveis e com infraestrutura precária, como países em desenvolvimento, o prejuízo pode ser ainda maior.
Além da suspensão dos dados, o governo americano também decidiu encerrar as atividades do Observatório Mauna Loa, no Havaí, ativo desde 1958 e referência global na medição de dióxido de carbono (CO₂). Embora não tenha sido justificado com base em segurança cibernética, críticos apontam que o fechamento teria motivações políticas, já que o observatório é central para o acompanhamento das mudanças climáticas.
Com a proximidade da temporada de furacões no Atlântico e o avanço das anomalias climáticas globais, cresce a pressão internacional para que os EUA revejam a decisão. Enquanto isso, cientistas buscam alternativas de cooperação com outras potências espaciais, como Japão e União Europeia, para evitar que a falta de dados comprometa a segurança de milhões de pessoas diante do aumento da frequência de eventos extremos.

