Geopolítica dos EUA: do Irã ao Ártico

Na mesma semana em que os Estados Unidos realizaram um novo ataque aéreo ao Irã, reacendendo tensões no Oriente Médio, um estudo acadêmico publicado na revista Mercator projeta outra frente da expansão americana: o Ártico. Intitulado Arctic Doctrine, Challenges and Perspectives of American Territorial Expansionism under Trump’s Second Administration (2025–2029), o artigo examina os efeitos geopolíticos, estratégicos e econômicos da proposta de incorporação do Canadá e da Groenlândia aos Estados Unidos durante o segundo mandato de Donald Trump.

Assinado por Luiz Ugeda e Karine Sanches, o estudo aponta que o Ártico passou a ocupar um lugar central na agenda internacional devido ao derretimento das calotas polares, à presença de minerais raros e combustíveis fósseis, e à abertura de novas rotas marítimas. Neste contexto, a chamada “Doutrina do Ártico” busca posicionar os EUA como potência dominante na região, com implicações diretas sobre a configuração territorial global. A proposta, ainda que hipotética, projeta um novo desenho geopolítico: os EUA passariam a somar mais de 22 milhões de km², superando a Rússia como maior nação em extensão territorial.

O artigo revisita episódios históricos de interesse expansionista dos EUA sobre o Canadá e a Groenlândia, desde as tentativas de anexação no século XVIII até ofertas formais, como a tentativa de compra da Groenlândia por Harry Truman em 1946. Ao longo do século XXI, os autores identificam um retorno desse impulso, agravado por disputas comerciais, preocupações com a segurança nacional e o avanço da China e da Rússia sobre áreas estratégicas do Polo Norte. Nesse cenário, a Base Aérea de Thule, na Groenlândia, e os corredores marítimos entre o Canadá e o Ártico ganham valor tático na defesa americana.

O texto também destaca que o expansionismo não se limita à esfera militar. A lógica de integração territorial inclui diplomacia econômica, estímulo a movimentos separatistas e a instrumentalização do direito à autodeterminação como vetor de reconfiguração estatal — sobretudo em regiões como Nunavut, no Canadá, e na própria Groenlândia, que possui governo autônomo. Ao analisar essa dinâmica, os autores traçam um paralelo com a “solução Texas”, usada historicamente pelos EUA para integrar territórios por meio de independência intermediária e posterior anexação.

Ao final, o estudo sugere que a Doutrina do Ártico deve ser lida como parte de uma reorientação estratégica dos Estados Unidos diante de uma nova ordem global multipolar. A ofensiva no Ártico se articula, segundo os autores, com outras frentes de influência territorial, como o Canal do Panamá e o Indo-Pacífico. Combinando pressão diplomática, militarização e exploração de recursos naturais, a política externa dos EUA reafirma, de forma simultânea, presença no sul e no norte do planeta. Nesse sentido, o ataque ao Irã e a expansão polar aparecem como faces complementares de um mesmo reposicionamento: a tentativa americana de manter centralidade geopolítica num século marcado por competição territorial intensificada.

Para ler o artigo (em inglês), clique aqui.

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