O geoportal “Brasil em um Mundo +2°C” coloca em mapa uma pergunta que já não é teórica: onde o aquecimento global tende a provocar mais danos no Brasil — e com quais impactos sobre cidades, estradas, lavouras e negócios. A plataforma, gratuita e aberta ao público, foi desenvolvida pelo Instituto Itaúsa em parceria com a empresa espanhola Lobelia Earth e permite visualizar, em um cenário de aquecimento acima de 2 °C, os territórios e setores mais expostos a eventos extremos e mudanças de longo prazo no clima.
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Na interface, o usuário escolhe uma área de interesse — um município, uma rota logística, uma região agrícola — e acessa camadas com diferentes ameaças, como inundações, deslizamentos, incêndios florestais, secas e ondas de calor. O sistema combina dados de satélite de alta resolução com 11 modelos climáticos globais, além de informações sobre biodiversidade, vegetação e uso do solo. O resultado é um painel que aponta não apenas onde há risco físico, mas também onde a degradação ambiental reduz a capacidade de resistência dos territórios.
Voltado a gestores públicos, empresas e produtores rurais, o geoportal organiza três grandes eixos: infraestrutura crítica (rodovias, energia), agricultura (soja, café, cana, pastagem e milho) e áreas urbanas com mais de 50 mil habitantes. No painel de cidades, cada centro urbano aparece como um ponto no mapa, com indicadores de exposição a calor extremo, alagamentos e outros impactos que pressionam sistemas de saúde, mobilidade e abastecimento. No painel agrícola, a ferramenta mostra, por bacia hidrográfica, como secas e altas temperaturas podem tornar algumas áreas menos adequadas – e outras mais viáveis – para determinados cultivos.
A plataforma também se conecta a um movimento regulatório que tende a ganhar força nos próximos anos. O Brasil deve ser o primeiro país a aplicar, a partir de 2027, as normas IFRS S1 e S2, que exigem divulgação estruturada de riscos climáticos e de transição por parte de empresas listadas. Nesse contexto, o geoportal oferece uma base territorial comum para estimar impactos em ativos, cadeias de suprimento e rotas logísticas. Empresas como a Dexco já usam as informações para revisar planos de investimento, rotas de transporte e exposição a incêndios em áreas de floresta plantada.
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Ao disponibilizar os dados de forma aberta, “Brasil em um Mundo +2°C” tende a reduzir a distância entre grandes companhias, administrações locais e outros atores que precisam planejar adaptação climática. O lançamento ocorre em um momento em que a temperatura média global já ultrapassou, em 2024, o limiar de 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais. Nesse cenário, a plataforma se soma a outras iniciativas que tentam deslocar o debate climático do nível genérico para o nível do mapa: quais municípios, estradas, lavouras e bairros correm mais risco — e quais decisões serão tomadas a partir dessa informação.
ISSN 3086-0415, edição de Luiz Ugeda.
