Luiz Ugeda*
Na corrida pelo desenvolvimento sustentável, a Nigéria, país mais populoso da África e uma das maiores economias do continente, enfrenta uma barreira invisível, mas estrutural: o subdesenvolvimento crônico da sua infraestrutura de dados geoespaciais. Embora pouco debatido no debate público, esse gargalo compromete decisões estratégicas em áreas vitais como saúde, agricultura, infraestrutura e planejamento econômico. A conclusão é de um estudo recente da Dev-Afrique Development Advisors, que diagnosticou um ecossistema fragmentado, descoordenado e incapaz de responder à complexidade das demandas atuais do país.
Os dados geoespaciais — informações ligadas a uma localização no território — são a base do planejamento moderno. São essenciais para identificar comunidades sem acesso a serviços, mapear áreas vulneráveis, orientar investimentos e otimizar o uso de recursos públicos. Países como Ruanda, Quênia e Índia mostraram como essa infraestrutura pode ser transformadora. Já a Nigéria, apesar de múltiplas iniciativas como a GRID3, eHealth Africa e outras, permanece com seus dados dispersos, metodologias inconsistentes e sem um repositório central. Em muitos casos, bases valiosas ainda são armazenadas em laptops pessoais ou pen drives, sujeitos a perda total.
As consequências são claras: oportunidades perdidas e decisões mal informadas. A campanha de erradicação da poliomielite entre 2012 e 2020 demonstrou o poder dos dados geoespaciais, ao localizar comunidades não mapeadas e planejar rotas de vacinação. No entanto, essa abordagem não foi institucionalizada. A maioria dos estados nigerianos ainda opera sem capacidades básicas de mapeamento. O setor agrícola, que emprega um terço da força de trabalho e representa cerca de 25% do PIB, também sofre com a ausência de dados atualizados sobre solos, água e padrões de cultivo, dificultando qualquer avanço em agricultura resiliente ao clima.
Segundo a Dev-Afrique, o ecossistema sofre vazamentos em três níveis: geração de dados (feita por projetos pontuais, com formatos não padronizados), análise (limitada por falta de investimentos e uso restrito de ferramentas proprietárias) e operacionalização (ainda dependente de projetos-piloto financiados por doadores, sem integração nas estratégias nacionais). Além disso, há um déficit grave de profissionais capacitados: faltam habilidades básicas em cartografia em muitos governos estaduais, e os poucos técnicos qualificados migram para ONGs ou o setor privado. O sistema educacional, por sua vez, ainda não acompanha as necessidades atuais.
Para sair desse ciclo de ineficiência, o relatório aponta cinco medidas urgentes: aprovar o projeto de lei sobre a Infraestrutura Nacional de Dados Geoespaciais (NGDI); definir uma agência líder com mandato claro para coordenar o ecossistema; criar um repositório nacional interoperável; investir em capacitação técnica com foco em ferramentas abertas; e alinhar o apoio dos doadores a uma estratégia nacional, evitando a duplicação de esforços.
Dados geoespaciais raramente ganham manchetes — mas são decisivos. São eles que determinam onde será construída uma escola, por onde passará um corredor logístico ou onde haverá maior impacto de um desastre climático. A Nigéria não pode continuar navegando às cegas. Corrigir a falha na tubulação dos dados geoespaciais precisa ser tratado como prioridade nacional. É hora de conectar os pontos — literal e estrategicamente.
* Advogado e Geógrafo. Pós-doutor em Direito (Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG) e doutor em Geografia (Universidade de Brasília, UnB). Doutorando em Direito (Universidade de Coimbra, FDUC). Ocupou funções de gestão em diversas empresas, associações e órgãos públicos do setor elétrico, do aeroportuário e de concessões de rodovias. É fundador de startups de dados para setores regulados. Autor da obra “Direito Administrativo Geográfico”.

