Os dados sobre religião divulgados pelo IBGE nesta sexta-feira (6/6) revelam profundas transformações na geografia das crenças no Brasil. Pela primeira vez em mais de seis décadas, o crescimento dos evangélicos perdeu força, ao mesmo tempo em que religiões de matriz africana, crenças não institucionalizadas e o número de brasileiros sem religião ganham novo peso no mapa espiritual do país. O retrato nacional se torna mais plural, com marcantes diferenças regionais e raciais.
O catolicismo segue como a religião com maior presença territorial, especialmente no Nordeste e Sul do país. Estados como Piauí (77,4%) e Paraíba (69%) ainda mantêm mais de dois terços da população católica, sustentando um modelo tradicional de fé herdado da colonização e reforçado por padrões culturais rurais. Apesar disso, o catolicismo segue em declínio: caiu de 65% para 56,7% da população entre 2010 e 2022. Municípios do interior gaúcho como Montauri e Centenário preservam percentuais acima de 95%, associados à imigração europeia e comunidades homogêneas.
A geografia evangélica se reorganiza com força nas regiões Norte e Centro-Oeste, onde a presença do Estado é historicamente frágil e os fluxos migratórios recentes criam espaços para novas lideranças religiosas. Acre (44,4%), Rondônia (41,1%) e Amazonas (39,4%) têm as maiores proporções de evangélicos no país. Em Arroio do Padre (RS), de tradição luterana pomerana, 88,7% da população é evangélica. Essas áreas revelam como a evangelização avança sobre fronteiras agrícolas, favelas urbanas e vazios institucionais.
As religiões de matriz africana ampliaram sua visibilidade territorial, com destaque para o Sul e Sudeste. O Rio Grande do Sul lidera com 3,2% da população se declarando umbandista ou candomblecista, seguido por Rio de Janeiro (2,6%) e São Paulo (1,5%). O aumento expressivo — de 0,3% para 1% nacionalmente — reflete o fortalecimento da identidade negra, o combate à intolerância religiosa e o reconhecimento da ancestralidade como valor social. Essas religiões ganham espaço nos mapas da fé, sobretudo em contextos urbanos com maior diversidade racial.
O número de brasileiros sem religião desenha uma nova cartografia do desapego institucional. Passaram de 7,9% para 9,3% da população entre 2010 e 2022, com maior presença nas capitais, entre jovens e entre os que têm maior escolaridade. Esses grupos se concentram especialmente no Sudeste e Sul, em grandes centros como São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre. A geografia da “não religião” cresce entre sujeitos que praticam espiritualidades individuais, misturam crenças e se afastam das estruturas formais de culto.
O espiritismo, embora em queda (de 2,2% para 1,8%), segue com maior presença no Sudeste, região onde o legado de Allan Kardec foi difundido por figuras como Chico Xavier. Municípios como Uberaba (MG) e Niterói (RJ) concentram centros espíritas históricos. A concentração geográfica do espiritismo permanece ligada a zonas urbanas de classe média e alta, onde a escolaridade mais elevada é compatível com o perfil do grupo — 48% dos espíritas têm ensino superior completo.
As chamadas “outras religiosidades”, como budismo, islamismo, judaísmo, hinduísmo e cristianismo ortodoxo, passaram de 2,7% para 4% da população. Esses grupos se distribuem majoritariamente em áreas urbanas do Sudeste e Sul, com forte influência migratória e étnica. Embora numericamente menores, representam focos significativos de diversidade religiosa em cidades como São Paulo, Curitiba e Brasília, reforçando a urbanização das crenças alternativas e sua crescente visibilidade.
As tradições indígenas seguem concentradas na região Norte, em territórios como o Alto Rio Negro, o Xingu e o Vale do Javari. Apesar de sua pequena representação nacional (0,1%), elas ganham atenção no debate público pelo avanço de igrejas evangélicas em aldeias. O Censo 2022 mostra que 32,2% dos indígenas se dizem evangélicos, enquanto 42,7% ainda se identificam como católicos e 7,6% preservam suas religiões tradicionais. O mapa das crenças indígenas se vê tensionado entre a persistência cultural e a pressão missionária.
Por fim, os dados por cor e raça revelam outra dimensão da geografia das religiões no Brasil. Pretos são maioria entre adeptos da umbanda e candomblé (2,3%), enquanto pardos lideram entre os evangélicos (49,1%). Brancos predominam no catolicismo e no espiritismo, reforçando a associação entre cor da pele, pertencimento religioso e acesso a certos espaços. O Censo 2022 mostra, assim, que a geografia da fé brasileira é também uma geografia das desigualdades e das identidades em disputa.
