Paragominas e a Geografia Tributária da Bioeconomia: quando o CAR vira ativo ambiental

A proposta do ex-prefeito de Paragominas (PA), Adnan Demachki, de criar uma Zona Franca da Bioeconomia recoloca o município paraense no mapa das inovações ambientais e fiscais do país. A ideia parte de um dado concreto: a validação do Cadastro Ambiental Rural (CAR) pode transformar excedentes de reserva legal em ativos comercializáveis, criando uma nova lógica tributária territorial, onde o valor da terra não depende apenas da produção agropecuária, mas também da sua contribuição climática.

Em Paragominas, cerca de 15,7% dos cadastros já foram validados, o que representa quase 40% do território municipal — bem acima da média nacional de 3,3%. Desses, 141 mil hectares são excedentes de reserva legal, área que pode ser vendida para compensar déficits de outras propriedades. A operação, estimada em cerca de R$ 300 por hectare ao ano, inaugura uma economia de base florestal que combina renda, regularização e redução de passivos ambientais. Na prática, o CAR passa a funcionar como um “imposto verde” voluntário, um instrumento de redistribuição ecológica entre propriedades.

Essa lógica inaugura uma nova forma de geografia tributária, em que o território é mapeado não apenas por limites fundiários, mas por fluxos de carbono, ativos ambientais e direitos de compensação. A tributação verde deixa de ser uma abstração fiscal e ganha expressão espacial: cada hectare validado e cada excedente de reserva legal tornam-se peças de um sistema de créditos ambientais com potencial de movimentar economias locais e reduzir desigualdades regionais.

Mas a estabilidade desse modelo depende de outro fator: o fogo. Se o desmatamento em Paragominas está relativamente sob controle, os incêndios florestais tornaram-se o novo vetor de emissões e o principal obstáculo à neutralidade de carbono. As secas mais longas e o colapso da umidade amazônica transformaram antigos aceiros em barreiras ineficazes, comprometendo a segurança ambiental dos ativos florestais.

Ao atrelar incentivos tributários à manutenção da floresta em pé e à validação cadastral, o município sinaliza um caminho para o Brasil avançar na regularização ambiental e criar um mercado legítimo de créditos territoriais. Trata-se de uma geografia tributária emergente, onde o valor do território é medido não apenas pela sua produção econômica, mas pela sua função ecológica.

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