SP cai à 13ª posição no ranking global: por que a ONU a enxerga menor que o IBGE

Felipe van Deursen, no blog Terra à Vista, do UOL, lançou a pergunta que viralizou: por que São Paulo deixou de figurar entre as quatro maiores cidades do mundo e apareceu apenas na 13ª posição na lista mais recente da ONU? A resposta não está em um suposto esvaziamento repentino da metrópole, mas em um choque de métodos estatísticos. De um lado, a nova metodologia das Nações Unidas para definir “cidade”; de outro, a forma como o IBGE recorta e mede a “Grande São Paulo”. O descasamento entre esses dois critérios ajuda a entender tanto a queda no ranking quanto a confusão que tomou conta do debate público.

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Na revisão 2025 do World Urbanization Prospects, a ONU passou a aplicar um critério global padronizado: cidade é qualquer aglomeração contínua de quadrículas de 1 km² com densidade mínima de 1.500 habitantes por quilômetro quadrado e, no total, pelo menos 50 mil moradores. A base combina imagens de satélite com modelos de população em grade, o que permite desenhar manchas urbanas comparáveis entre países, independentemente das fronteiras administrativas internas. Essa mudança gerou recontagens retroativas, fez Jacarta, capital da Indonésia, saltar para o topo do ranking e reposicionou diversas megacidades, inclusive São Paulo.

O IBGE, por sua vez, trabalha com outra lógica quando fala em “Região Metropolitana de São Paulo”. O instituto combina critérios legais (a lei que cria a região metropolitana) com análises funcionais, como fluxos de deslocamento diário para trabalho e estudo, para definir um conjunto de 39 municípios articulados à capital. Nas estimativas mais recentes, essa região continua sendo a maior do país, com cerca de 21,5 a 21,6 milhões de habitantes, muito acima dos 18,9 milhões atribuídos pela ONU à Grande São Paulo no novo levantamento. A diferença não é um erro de conta: é o efeito direto de se medir unidades geográficas distintas.

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Na prática, isso significa que IBGE e ONU estão falando de “São Paulo” com mapas diferentes sobre a mesa. Quando o IBGE divulga números da metrópole, inclui municípios que mantêm vínculos econômicos e de mobilidade intensos com a capital, mesmo que tenham áreas menos densas ou zonas rurais significativas. Já a ONU recorta apenas a mancha urbana contígua que atinge o limiar de densidade estabelecido, deixando de fora trechos menos compactos e áreas de transição. O resultado é uma Grande São Paulo “encolhida” no padrão internacional, o suficiente para perder posições num ranking global cada vez mais dominado por megacidades asiáticas.

Esse desencontro metodológico ajuda a entender por que manchetes sobre a “queda” de São Paulo soam mais dramáticas do que a realidade demográfica. A cidade não deixou de ser um dos principais polos urbanos do planeta, nem passou por um colapso populacional em sete anos. O que mudou foi a régua. Enquanto o IBGE continua a usar recortes que dialogam com a gestão territorial brasileira — regiões metropolitanas, arranjos populacionais e hierarquia urbana —, a ONU reorganizou seu banco de dados para privilegiar a comparabilidade global, mesmo que isso desalinhe os números em relação às estatísticas nacionais.

As consequências vão além da curiosidade geográfica. Rankings internacionais alimentam estratégias de marketing urbano, decisões de investimento e até argumentos políticos sobre “tamanho” e “peso” de cada metrópole. Quando um relatório da ONU aponta 18,9 milhões de habitantes e o IBGE fala em mais de 21 milhões para a mesma “Grande São Paulo”, gestores, empresas e pesquisadores podem chegar a diagnósticos distintos sobre densidade, demanda por transporte, pressão sobre habitação ou vulnerabilidade climática, dependendo de qual número escolhem usar.

Do lado brasileiro, o IBGE produziu nos últimos anos instrumentos sofisticados, como os “arranjos populacionais” e o estudo REGIC, que mapeiam redes de influência urbana a partir de fluxos efetivos de pessoas e serviços, algo central para políticas públicas em saúde, educação e mobilidade. A agenda da ONU, por outro lado, responde à necessidade de ter uma malha única de cidades para monitorar metas globais, como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Nenhuma das abordagens é “mais certa” em termos absolutos; elas respondem a perguntas diferentes e, por isso, produzem mapas diferentes.

No fim, a queda de São Paulo de 4ª para 13ª maior cidade do mundo diz menos sobre o destino da metrópole e mais sobre o avanço das técnicas estatísticas usadas para enxergar o planeta urbano. A pergunta que fica, para além do ranking, é como aproximar esses dois mundos — o das estatísticas nacionais e o dos indicadores globais — de modo que o público entenda o que está sendo comparado. Sem esse esforço de tradução metodológica, a cidade que “despencou” nos gráficos corre o risco de ser mal interpretada, tanto dentro como fora do Brasil.

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Para acessar o World Urbanization Prospects 2025, clique aqui.

ISSN 3086-0415, edição de Luiz Ugeda.

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