A urbanista e ex-secretária de Habitação de Belo Horizonte, Branca Macahubas, afirma no Diário do Comércio que a inteligência artificial já não se limita a automatizar dados: ela passa a decidir sobre o espaço urbano. Superando o paradigma das cidades “inteligentes”, entramos em uma nova era — a do urbanismo algorítmico. Nesse modelo, os sistemas aprendem, antecipam e agem, deslocando o protagonismo decisório dos gestores para as máquinas — ou, no mínimo, exigindo uma reinvenção profunda do papel do poder público.
O conceito, proposto em 2024 por Federico Cugurullo, da University of Manchester, marca uma inflexão crítica. A cidade deixa de ser apenas monitorada por sensores e passa a ser codificada em tempo real, com decisões tomadas por sistemas que cruzam grandes volumes de dados, reconhecem padrões e sugerem — ou executam — ações. Funções clássicas do Estado, como emissão de licenças e tramitação de processos, caminham para a obsolescência. A IA tende a realizá-las de forma mais célere, eficaz e, potencialmente, mais justa — desde que treinada com parâmetros transparentes e públicos.
Segundo Macahubas, esse novo arranjo exige uma virada institucional. O gestor urbano já não será um executor técnico de rotinas, mas sim um mediador de conflitos, articulador de interesses e guardião da justiça territorial. Para continuar relevante, a administração pública deverá abandonar a lógica da digitalização burocrática e assumir uma postura estratégica e ética frente ao avanço algorítmico. Não se trata de resistir à tecnologia, mas de redesenhar a presença do Estado nas dinâmicas da cidade.
Por fim, a autora provoca: permaneceremos presos a estruturas arcaicas enquanto sistemas decidem os rumos urbanos? “Não basta digitalizar a burocracia”, alerta. O verdadeiro desafio é reinventar a função pública em um ecossistema urbano em que algoritmos já detêm o protagonismo. A pergunta que fica é direta e desconfortável: como continuar necessário à cidade quando ela começa, sozinha, a se autogerir?
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