“Potencial do georreferenciamento no transporte é gigantesco”

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Murillo Ferreira, CEO da Celo4 Earth: plataforma geo democratiza o acesso do setor de transporte ao mercado de carbono – foto: Ton Braga

Criador de uma tecnologia georreferenciada que rastreia e monitora emissões veiculares, o Verden ESG, Murillo Ferreira é fundador e CEO da Celo4 Earth e percebeu o potencial do georreferenciamento para acompanhar o tema ESG (Environmental, social, and corporate governance – ambiente, social e governança) e democratizar o acesso das empresas de transporte ao mercado de créditos de carbono. “No setor de transporte, o georreferenciamento aliado às tecnologias e aos dados históricos de emissões e de compensações pode indicar cenários de evoluções na descarbonização do setor e a eficiência das chamadas rotas verdes”, diz Ferreira, prevendo um futuro promissor para ferramentas como o Verden e a plataforma /riobranco, do Geocracia.

Para Murillo, o geo é um big data poderoso, já que é capaz de produzir dados que as medições tradicionais estáticas são incapazes de reproduzir de forma isolada. “O Brasil tem um potencial enorme de fomentar esse mecanismo justamente por sua dependência majoritária do transporte rodoviário. Por essa razão, vejo o país como um solo fértil para a expansão dessa tecnologia”, afirma o executivo, comemorando a utilização do Verden pelo Programa Despoluir, da CNT (Confederação Nacional do Transporte), Sest (Serviço Social do Transporte) e Senat (Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte).

Acompanhe, a seguir, a entrevista na íntegra.

A Celo4 Earth acaba de lançar o Verden ESG, uma ferramenta que usa o rastreamento veicular para, entre outras coisas, calcular parâmetros de emissões e ajudar as empresas de transporte no mercado de carbono. Podemos dizer que o georreferenciamento no setor de transporte superou finalmente a fase do tacógrafo e do roubo de cargas?

O Verden ESG é uma tecnologia que rastreia e mensura emissões veiculares. A plataforma permite a medição e compensação de emissões de veículos leves, veículos de médio porte, semipesados e pesados. Ele apresenta um mapa completo das emissões de cada veículo, permitindo a compensação com créditos de carbono certificados pela ONU. A tecnologia simplifica esse processo enquanto democratiza o acesso ao mercado de carbono para todas as transportadoras brasileiras e é uma evidente evolução no uso e aplicação do georreferenciamento, uma vez que a tecnologia expande sua atuação para as questões climáticas e, consequentemente, torna acessível às transportadoras o mercado de carbono.

Como vê o fato de um programa como o Despoluir, conduzido por entidades como a CNT, SEST e SENAT, ter adotado o Verden ESG como parceiro tecnológico na busca por soluções ambientais no transporte? Como vai funcionar essa parceria?

O Despoluir é o maior programa ambiental do Brasil e um dos maiores da América Latina. Para que você tenha uma ideia do tamanho dessa iniciativa, em agosto de 2022, o Despoluir atingiu a marca de 3,7 milhões de inspeções veiculares. O programa tem a participação de 55.000 transportadoras e conta com 27 federações.

Segundo dados do Despoluir, o setor transportador responde por 22% das emissões de Gases do Efeito Estufa (GEE) no Brasil, proporção equivalente à realidade mundial e confirmado por entidades internacionais como o Climate Watch. Também na realidade brasileira e mundial, a demanda por serviços de transporte e logística acompanha o crescimento econômico, causando assim um aumento considerável no volume de emissões do setor.

O Programa torna a essas renomadas entidades pioneiras no tema ambiental, sendo para nós uma excelente oportunidade para contribuirmos com nossa tecnologia e expertise. Entendemos que o Verden ESG contribui com a história de sucesso do Despoluir e com a sua evolução. A iniciativa convida o setor transportador a exercer uma atividade mais responsável ambientalmente e estimula os demais setores a seguirem o exemplo.

Assim, a adesão a um compromisso de descarbonização do setor por meio de uma aproximação com o mercado de carbono faz muito sentido, uma vez que o crédito de carbono torna tangível a redução das emissões de GEE e também a certifica o compromisso alcançado. O mercado financeiro e as empresas comprometidas com o ESG enxergam o alcance certificado desses compromissos com bons olhos, viabilizando linhas de crédito verde para as transportadoras com taxas de juros mais atraentes, o acesso a contratos de prestação de serviços antes acessíveis somente a empresas com departamentos de sustentabilidade estruturados para tal e maior competitividade.

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O geoprocessamento pode ser uma maneira de fortalecer a gestão dos gases de efeito estufa e outros poluentes? Como vê o surgimento de plataformas como o Verden e a /riobranco no mercado ambiental?

Entendo que o potencial é gigantesco. Vamos tomar como modelo o setor transportador. Nesse setor, o georreferenciamento aliado às tecnologias e aos dados históricos de emissões e de compensações pode indicar cenários de evoluções na descarbonização do setor e a eficiência das chamadas rotas verdes. Trata-se de um big data poderoso, uma vez que o georreferenciamento é capaz de produzir dados que as medições tradicionais estáticas são incapazes de reproduzir de forma isolada. O Brasil tem um potencial enorme de fomentar esse mecanismo justamente por sua dependência majoritária do transporte rodoviário. Por essa razão, vejo o país como um solo fértil para a expansão dessa tecnologia.

E ele pode ser aplicado a outros poluentes. Na versão do Verden ESG desenvolvida para o Despoluir, foram considerados o Dióxido de Carbono (CO2), o Metano (CH4) e o Óxido Nitroso (N2O). A medição da tonelada de CO2 equivalente (tCO2e), que representa o fator de medição proporcional do CO2, do CH4 e do N2O, atende aos critérios do Programa GHG Protocol, responsável pela adaptação do método GHG Protocol à realidade brasileira. Entretanto, a API do Verden ESG toma também como base os reports publicados pela Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo), o que abre o leque de medições veiculares para outros componentes, como os hidrocarbonetos não metano (HCNM) e o material particulado (MP), por exemplo.

Tramitam no Congresso iniciativas para regulamentar o mercado de carbono, algo que deverá ser aprovado em breve pelas Nações Unidas. Esse mercado veio para ficar? Como o Brasil pode se posicionar globalmente?

O mercado de carbono veio para ficar. Ele tangibilizou a questão climática e ambiental, o que tornou o tema atrativo para as empresas. Até a criação do mercado de carbono, o tema representava para as empresas um desperdício de dinheiro, uma vez que o investimento ambiental não era capaz, até então, de provisionar nos registros financeiros e contábeis corporativos qualquer retorno financeiro a curto, médio e longo prazos. Com o mercado de carbono, investir no meio ambiente passou a fazer sentido.

Certamente, o Decreto 11.075/2022 representa um avanço extraordinário no cenário brasileiro, mas não podemos esquecer que, mesmo sendo um avanço relevante, estamos pelo menos oito anos atrasados em relação ao mercado europeu, por exemplo. Parece raso o exemplo europeu em razão da nossa realidade econômica e estrutural, mas é assustador notar que países como a Colômbia e o Chile, nossos vizinhos de continente, já têm mercados estabelecidos e aquecidos a algum tempo. Nesse cenário e mesmo que de forma tardia, o decreto é algo a ser comemorado, já que cumpre alguns dos compromissos propostos na COP 21 ocorrida no ano de 2015, em Paris. O decreto propõe o registro de emissões, a certificação dos créditos de carbono regulamentados no Brasil e a abertura para acordos setoriais.

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