
Em 23 de julho de 1972, a NASA lançou da Base Aérea de Vandenberg, na Califórnia, o Satélite de Tecnologia de Recursos Terrestres, mais tarde rebatizado de Landsat 1. Levava a bordo o protótipo de um scanner multiespectral (MSS), equipamento capaz de capturar a luz visível e invisível e classificá-la em mais do que apenas três bandas espectrais. O dispositivo, o primeiro a enviar dados digitais a partir do espaço, possibilitou descobrir um verdadeiro tesouro de informações, desde o estudo de qualidade da água e o vigor de colheitas até a umidade do solo e informações sobre o uso da terra. Após anos de guerra fria e corrida espacial, tratava-se de um dos primeiros projetos da NASA que não era confidencial, ou seja, seus dados poderiam ser compartilhados com a comunidade científica.
A responsável pelo projeto era a física e matemática formada pelo MIT Virginia Tower Norwood, então com 45 anos e, desde os anos 50, trabalhando com o desenvolvimento de antenas, links de comunicação e experimentos ópticos para a Hughes Aircraft, um dos maiores fornecedores dos EUA no setor aeroespacial e de defesa. Virginia foi a primeira mulher a trabalhar na empresa, a única entre 2.700 homens, na época de sua admissão. Em reportagem para a Techonology Review, a editora do MIT News, Alice Dragoon, conta a história da inventora do sensor MSS e como ela nos ajudou e enxergar o mundo a partir do espaço.
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Virginia já tinha equipado, em 1966, um outro projeto da NASA, de capital importância: a sonda Surveyor, encarregada de enviar imagens da superfície lunar que revelassem bons locais de pouso para a missão Apollo, que levaria o primeiro ser humano à Lua. E ela sabia que a NASA e o US Geological Survey estavam conversando sobre a construção de um satélite para observar a Terra e monitorar seus recursos naturais. “Com um satélite, você pode chegar ao topo das montanhas e a todos os lugares que os geólogos gostariam de conhecer e dos quais não possuíam dados”, diz ela, hoje com 94 anos.
Outra inovação do protótipo que equipou o Landsat 1 era que o scanner seria digital. Seus detectores capturariam pixels individuais (cada um representando uma área aproximadamente do tamanho de um campo de futebol) que formariam linhas de dados compiladas para formar imagens digitais e poderem ser analisadas em computadores.
A NASA tinha muitas dúvidas de que os dados de seis bits do MSS pudessem produzir imagens de alta qualidade. Mas, Virginia sabia que seria difícil processar com precisão um sinal analógico contínuo. “Você quer que seja preciso”, diz ela. “Ou fica com uma sujeira na forma de listras”, quando os dados são reconstruídos em imagens. Torná-lo digital permitiria calibrar os níveis de fótons de cada sensor com muita precisão. Mais tarde, oficiais da NASA diriam a ela que os dados MSS foram os primeiros transmitidos digitalmente do espaço, estabelecendo o padrão para o futuro sensoriamento remoto quantitativo.
Os dados de diferentes bandas espectrais podem ser comparados, oferecendo muito mais precisão do que a análise visual de imagens analógicas. Vistas do espaço por “olhos analógicos”, campos de trigo e milho, por exemplo, podem ter a mesma aparência, mas suas assinaturas espectrais únicas permitem diferenciá-los. Isso abriu um campo infinito de possibilidades para a ciência de observação geoespacial da Terra.
Nos anos seguintes e até se aposentar, em 1989, Virginia esteve diretamente envolvida no desenvolvimento dos sucessores Landsat 2, 3, 4 e 5 – os dois últimos com o MSS original e o Thematic Mapper, de 6 bandas, como ela projetou inicialmente. Mesmo os mais recentes lançamentos (7, 8 e 9) possuem aperfeiçoamentos do equipamento construído por ela. Por isso e por ter ensinado o mundo a ver a si mesmo de uma maneira totalmente inovadora e muito mais detalhada, Virginia Norwood é conhecida até hoje como a “mãe do Landsat”.
Edmilson M. Volpi é engenheiro Cartógrafo e editor da página Curiosidades Cartográficas no Facebook e Instagram
Fontes: Techonology Review e Curiosidades Cartográficas




