Atlas Miller, a jóia que queria evitar a 1ª circunavegação

Atlas Miller
Atlas Miller: o mar como um grande Mediterrâneo – imagem: domínio público (Wikimedia Commons)

Edmilson Volpi*

Um dia antes de Fernão de Magalhães zarpar do porto espanhol de Sanlúcar de Barrameda, a 20 de setembro de 1519, Portugal, o grande rival marítimo da Espanha, lançava um um ícone da história da cartografia. Ricamente decorado com iluminuras de Flandres e outras gravuras, além de valiosa informação geográfica, o Atlas Miller é até hoje considerado uma das mais belas obras cartográficas de todos os tempos.

Feito pelos cartógrafos Lopo Homem, Pedro Reinel e Jorge Reinel e ilustrado pelo miniaturista António de Holanda, o Atlas Miller é “uma magnífica obra de arte, com ilustrações que podem ser enquadradas dentro da escola flamenga”, de acordo com Pérez-Mallaína, autor da conferência 1519-1522: a nova imagem do mundo. O Atlas Miller e a primeira circunavegação da Terra.

Só havia um problema: apesar da beleza e da riqueza de informações – inclusive, já com os registros das terras brasileiras descobertas quase 20 antes por Cabral –, a obra difundia uma ideia errada: a de que os oceanos Índico e Atlântico eram cercados de terra por todos os lados, fechados como um gigantesco Mediterrâneo (foto do topo da página) e que, portanto, não seria possível dar a volta ao mundo de navio.

A costa brasileira já constava do Atlas Miller – domínio público (Wikimedia Commons)

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Para os espanhóis, isso não era coincidência, já que, a ser verdade a teoria do Atlas Miller, a única rota naval para as ilhas Moluca (atual Indonésia), de onde se traziam caríssimas especiarias, era a portuguesa, que passava pelo Cabo da Boa Esperança, no sul da África, e pela Índia.

A disputa pela posse das Ilhas Molucas – e pelo controle do negócio das especiarias – era altamente estratégica e mobilizou enormes esforços tanto do lado espanhol como do português. A viagem de Fernão de Magalhães – curiosamente, um português – era, portanto, um investimento prioritário de Carlos I, o rei da Espanha.

A epopeia de Magalhães (Wikimedia Commons).

Assim, junto outros 238 homens, Magalhães embarcou em um dos cinco navios da primeira esquadra de expedição formada no mundo. Após cruzarem o trecho entre o extremo sul da América do Sul e a Antártida, trecho que passou a ser conhecido como Estreito de Magalhães, tornaram-se os primeiros europeus a avistarem o Pacífico, em novembro de 1520.

A esquadra chegou às Filipinas em abril de 1521, começando imediatamente trocas comerciais. Dias depois, no entanto, em uma emboscada feita por nativos da Ilha de Mactan, Fernão de Magalhães foi morto, a 21 de abril de 1521. A expedição continuou, chegou às ilhas Molucas e, em apenas um navio, o Victoria, regressou pelo Oceano Índico e pela costa africana para regressar a Sanlúcar de Barramena, em 6 de setembro de 1522.

Do ponto de vista teórico, a expedição foi um sucesso, provando de uma vez por todas que a Terra era, de fato, redonda, dando uma a real dimensão do planeta e esboçando a imagem do mundo que temos hoje. O custo desses quase três anos de viagem foi altíssimo. As terríveis condições das navegações do século 16 cobraram seu preço. Magalhães estava morto e só um dos cinco navios voltara com apenas 18 dos quase 240 homens que haviam zarpado inicialmente.

Até hoje, alguns historiadores acreditam que o Atlas Miller foi uma última tentativa dos portugueses dissuadirem os espanhóis de tentarem chegar à Ásia pelo outro lado e estabelecerem uma rota concorrente. Segundo Pérez-Mallaína, a obra pode ser vista “como uma forma de dissuasão cartográfica, que se difundiu a partir de Portugal, destinada a retirar o apoio geográfico ao projeto de Magalhães”.

A trágica epopéia de Magalhães no entanto, acabou provando que ambos estavam certos e errados ao mesmo tempo. Sim, dava para para chegar à Ásia pelo oeste, como diziam os espanhóis; mas, a Terra era bem maior do que os exploradores imaginavam e, numa época ainda sem o canal de Suez, a rota portuguesa, dos criadores do Atlas Miller, ainda era a mais viável.

Leia aqui o artigo original e a tradução no Curiosidades Cartográficas.

* Edmilson M. Volpi é engenheiro cartógrafo e editor da página Curiosidades Cartográficas no Facebook Instagram

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